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28 agosto 2011

A Formação Profissional do Restaurador por Régis Eduardo Martins[1]

  A especialização profissional é um dos quesitos principais para o êxito de uma restauração. Por caracterizar-se como uma intervenção direta sobre o bem cultural, o restauro deve ser considerado a última das ações a serem realizadas, sendo sempre precedidas por medidas de preservação ou conservação que não impliquem em interferências propriamente ditas sobre a matéria que constitui o objeto. Somente depois de constatadas a impossibilidade de tais medidas garantirem a proteção do imóvel deve-se realizar a restauração, definindo-a segundo os princípios apresentados por KUHL (2005)[i]:

- Distinguibilidade: pois a restauração (que é vinculada às ciências históricas) não propõe o tempo como reversível e não pode induzir o observador ao engano de confundir a intervenção ou eventuais acréscimos com o que existia anteriormente, além de dever documentar a si própria.
- Reversibilidade: pois a restauração não deve impedir, tem, antes, de facilitar qualquer intervenção futura; portanto, não pode alterar a obra em sua substância, devendo-se inserir com propriedade e de modo respeitoso em relação ao preexistente.
- Mínima intervenção: pois a restauração não pode desnaturar o documento histórico nem a obra como imagem figurada.

  Os princípios da distinguibilidade, da reversibilidade e da mínima intervenção visam garantir que o restauro seja realizado segundo um processo metodológico, desenvolvido com intuito de permitir a transmissão do bem cultural às futuras gerações sem suprimir ou alterar as marcas do tempo sobre o mesmo.
De acordo com BRANDI (2004)[ii], o restauro é "o momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão ao futuro". Assim, as intervenções realizadas devem ser identificáveis como uma marca distinta da época que a produziu, sem que se reduza a restauração a uma mera recomposição estética ou que se produza um falso histórico a partir dela.
  A elaboração e a execução de um projeto de restauração para edifícios é um processo de bastante complexidade que envolve fatores exógenos ao bem cultural em si. Não basta apenas um diagnóstico preciso do estado de conservação do imóvel, mas antes de tudo, qualquer ação é definida a partir de um estudo particular de cada caso, onde a intervenção que será estipulada é analisada em referência às diversas implicações relacionadas com todo o contexto cultural, histórico e espacial que o cerca.
Cada etapa que envolve um projeto de restauro analisa a constituição do bem segundo sua historicidade; suas características arquitetônicas, originais ou acrescentadas; sua inserção no meio urbano ou rural; os materiais utilizados; além de outros pontos importantes, sob os quais irão definirem-se as medidas de conservação e restauração a serem realizadas. Tais questões são descritas na Carta de Restauro de 1972[iii] concebida na Itália, discorrendo-se da seguinte forma:

  A realização do projeto para a restauração de uma obra arquitetônica deverá ser precedida de um exaustivo estudo sobre o monumento, elaborado de diversos pontos de vista (que estabeleçam a análise de sua posição no contexto territorial ou no tecido urbano, dos aspectos tipológicos, das elevações e qualidades formais, dos sistemas e caracteres construtivos, etc), relativos à obra original, assim como aos eventuais acréscimos ou modificações. Parte integrante desse estudo serão pesquisas bibliográficas, iconográficas e arquivísticas, etc., para obter todos os dados históricos possíveis. O projeto se baseará em uma completa observação gráfica e fotográfica, interpretada também sob o aspecto metrológico, dos traçados reguladores e dos sistemas proporcionais e compreenderá um cuidadoso estudo específico para a verificação das condições de estabilidade. (CURY, 2004, p. 157)

  Não menos criteriosa é a ação da obra de restauro em si, tratado na mesma Carta com os dizeres a seguir:

  A execução dos trabalhos pertinentes à restauração dos monumentos, que quase sempre consiste em operações delicadíssimas e sempre de grande responsabilidade, deverá ser confiada a empresas especializadas e, quando possível, executada sob orçamento e não sob empreitada. (CURY, 2004, p. 157)

O conhecimento e a familiaridade com as características construtivas e arquitetônicas da edificação são pontos fundamentais para o profissional da restauração. A falta de formação adequada redunda em intervenções equivocadas que, geralmente, implicam em consideráveis perdas na autenticidade[2] do bem cultural. Diante da complexidade que envolve tais ações, assim trata o Compromisso de Brasília de 1970[iv]:

  O problema da recuperação e restauração de monumentos [...] é extremamente complexo [...] porque depende de técnicos qualificados, cuja a formação é demorada e difícil, pois requer, além de tirocínio de obras e de familiaridade com os processos construtivos antigos, sensibilidade artística, conhecimentos históricos, acuidade investigadora, capacidade de organização, iniciativa e comando e, ainda, finalmente desprendimento. (CURY, 2004, p. 141)

  Durante o séc. XX, motivados pelas diversas conferências realizadas em prol da preservação do patrimônio cultural, o restauro foi amplamente discutido na Europa, definindo-se metodologias e critérios específicos para a realização das intervenções. A especialização dos profissionais da área foi deliberada como um dos principais quesitos para o êxito na proteção dos monumentos e conjuntos urbanos.
No Brasil, as ações voltadas para a especialização profissional na preservação do patrimônio edificado delinearam-se efetivamente após os anos 70, quando surgiram os primeiros cursos regulares nessa área. No entanto, a formação de restauradores de bens imóveis em nível superior se dá em sua grande maioria através de pós-graduações, como as existentes no Cecre[3] na Bahia, no Ceci[4] em Pernambuco, no Cecor[5] em Minas Gerais e em linhas de mestrado oferecidas por universidades. Somente em 2007 foi criada a primeira graduação específica para o restauro arquitetônico, através do curso de Tecnologia em Conservação e Restauro ofertado pelo IFMG[6]. Para a capacitação de mestres de ofícios, como são conhecidos os profissionais que executam as intervenções, existe cursos como os disponibilizados em diversas oficinas escolas de artes e ofícios existentes no país.

Referências Bibliográficas

[1] Pós-Graduando em Gestão do Patrimônio Histórico e Cultural pela UFMG. Tecnólogo em Conservação e Restauro pelo Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Ouro Preto.
[2] “Os edifícios e lugares são objetos materiais, portadores de uma mensagem ou de um argumento cuja validade, no quadro de um contexto social e cultural determinado e de sua compreensão e aceitação pela comunidade, os converte em um patrimônio. Poderíamos dizer, com base neste princípio, que nos encontramos diante de um bem autêntico quando há correspondência entre o objeto e seu significado.” (CURY, 2004, p.325-326)
[3] Curso de Especialização em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos/UFBA.
[4] Centro de Conservação Integrada.
[5] Centro de Conservação/Restauração de Bens Culturais/UFMG.
[6] Instituto Federal de Minas Gerais.


[i] KUHL, Beatriz Mugayar. História e Ética na Conservação e na Restauração de Monumentos Históricos. Revista CPC, 2005, v. 1, n. 1. Disponível em
http://www.usp.br/cpc/v1/php/wf07_revista_interna.php?id_revista=2&id–conteudo=6&tipo=5> Acesso em 01/10/2010.

[ii] BRANDI, Cesare. Teoria da Restauração. Cotia: Ateliê, 2004, p. 30.

[iii] Carta de Restauro, 1972. In: CURY, Isabelle. INSTITUTO DO PATRIMONIO HISTORICO E ARTISTICO NACIONAL (BRASIL). Cartas patrimoniais. 3.ed., rev. e aum. Brasília: IPHAN, 2004. p. 147-169. (Edições do patrimônio).

[iv] Compromisso de Brasília, 1970. In: CURY, Isabelle. INSTITUTO DO PATRIMONIO HISTORICO E ARTISTICO NACIONAL (BRASIL). Cartas patrimoniais. 3.ed., rev. e aum. Brasília: IPHAN, 2004. p. 137-141. (Edições do patrimônio).

Carta de Brasília, 1995. In: CURY, Isabelle. INSTITUTO DO PATRIMONIO HISTORICO E ARTISTICO NACIONAL (BRASIL). Cartas patrimoniais. 3.ed., rev. e aum. Brasília: IPHAN, 2004. p. 323-328. (Edições do patrimônio).

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