CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE BENS CULTURAIS

Mostrando postagens com marcador Restauro e Conservação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Restauro e Conservação. Mostrar todas as postagens

10 julho 2015

A FENOMENOLOGIA DE CESARE BRANDI

Cesare Brandi pode ser considerado como um dos teóricos mais proeminentes no campo da Restauração nas décadas sub-seqüentes ao pós-guerra, empreendendo inovadora reflexão acerca das premissas filosóficas e conceituais que fundamentam esta disciplina. Seu pensamento, entretanto, é tributário à tradição clássica da filosofia, não mencionando diretamente na extensão de sua obra todo debate precedente realizado em mais de um século dentro do próprio campo disciplinar do Restauro. Neste sentido, sua teoria apresenta um enraizamento notavelmente fenomenológico, responsável em parte pela novidade de sua abordagem. Neste artigo objetivamos apresentar brevemente os principais conceitos derivados desta compreensão fenomenológica do restauro, em específico sua temporalidade e historicidade.

07 junho 2013

PEQUENO RESUMO DA HISTÓRIA DA CONSERVAÇÃO/ RESTAURAÇÃO


Os antigos gregos já priorizavam a conservação de suas obras, praticando a Conservação Preventiva, pois faziam a seleção de materiais e técnicas para a execução de suas esculturas e pinturas. Os templos tinham o papel dos museus, onde as esculturas e outras peças eram inventariadas e as esculturas arcaicas eram enterradas. A Restauração era praticada para recompor partes de peças que eram danificadas pelas guerras e roubos.
Na Roma antiga, a prática do colecionismo indicava poder social e político. As coleções eram privadas, e as obras eram modificadas ao serem obtidas. Faziam-se cópias e reproduções e praticavam-se intervenções drásticas, como a transposição de pinturas murais para painéis de madeira. Os romanos, pela dominação territorial extensa, absorveram várias culturas e religiões, modificando-as. Buscavam a imortalidade da matéria. Devido a isso, a restauração era vista como magia, pois o restaurador era aquela pessoa especial que dava vida à obra através do realismo obtido pelas intervenções. O restaurador tinha cargo público: curator statuarum.
Na Idade Média, a Conservação/Restauração estava ligada à recuperação de materiais. A pobreza e a falta de matéria-prima levavam à destruição de monumentos e à refundição de esculturas e peças de metal; buscavam-se recuperar pedras e peças de monumentos abandonados; os templos, termas e teatros serviam como canteiros de obtenção de mármores; fragmentos e esculturas inteiras de mármores eram queimados para a fabricação da cal utilizada na argamassa. As obras sofriam intervenções “utilitárias” ou de gosto, e o restaurador era considerado o artista, pois as “corrigia”.
Inicia-se então um grande desenvolvimento de técnicas e do fazer artesanal, com o qual aparecem os primeiros tratados técnicos, fruto das experiências dos monastérios, como o Libro Del Arte, de Cenino Cennini (séc. XIV), sobre técnicas pictóricas.
Com o Renascimento, a Restauração fez prevalecer a instância estética sobre a histórica, através de inserções e renovações que mudam o significado iconográfico das obras: há uma busca de avanços tecnológicos e emprego de materiais distintos dos do original mas com o intuito de depois igualá-los através de pátinas; há presença de um colecionismo conservador e recuperador, motivado pelo gosto classicista; surgem falsificações através de intervenções que se aproximam do original, e são motivadas pelo gosto dos antiquários; ocorrem modificações no tamanho e formato das obras, devido à mudança de gosto e também às trocas de coleções, assim como, nas imagens, por meio de transformações mais realistas e também pelas mudanças de fundos; as intervenções relacionadas à religião alteram as obras por razões de culto, seja para valorizar o santo ou para substituí-lo por outro cuja devoção fosse mais atual; imagens consideradas indecentes são destruídas; imagens religiosas com grandes lacunas são queimadas em nome do respeito; proíbem-se as imagens de nus, nas quais são colocados vestidos e “panos de pureza”.
No Barroco, a Conservação/Restauração adquire um caráter mais específico devido à definição, pelo mercado, das diferenças entre artista e restaurador; buscamse novos materiais, técnicas e teorias sobre as possibilidades e os limites da restauração da matéria e sobre o valor histórico e cultural das obras; ocorrem avanços nas técnicas de restauração dos suportes e de limpezas; as transposições e marouflages passam a ser amplamente utilizadas; valorizaram-se a pátina do tempo; há uma difusão de produtos devido aos receituários; a reintegração cromática é realizada, de forma ilusionista através de repintura com os mesmos materiais do original; esculturas são complementadas e patinadas; iniciam-se uma busca por materiais reversíveis, e continuam as mudanças formais e de tamanho, de acordo com o gosto da época.
No final do século XVIII e no século XIX, com o Classicismo, a Conservação/Restauração vincula-se ao sentimento de patrimônio cultural coletivo: criam-se museus e academias; controlam-se as intervenções nas obras; as coleções são abertas ao público, e os museus adotam políticas pedagógicas” em relação aos visitantes; surge a definição de museu: “local onde se guardam várias curiosidades pertencentes às ciências, letras e artes liberais”.
Na pintura, buscam-se materiais mais estáveis, experimentando-se diversos aglutinantes, com preferência para as têmperas e encáusticas, pelo seu não-amarelecimento e não-escurecimento; há uma maior compreensão sobre as alterações das cores devido ao tempo e sobre a instabilidade de determinados pigmentos como o azul da Prússia; surgem novos pigmentos brancos, como o branco de zinco que substitui o branco de chumbo; a cera é usada, na frente e no verso da pintura, como camada de proteção contra umidade; iniciam-se os estudos sobre a oxidação dos materiais; inspetores do Estado controlam os trabalhos dos restauradores e classificam as obras de acordo com as suas deteriorações; produtos corrosivos deixam de ser utilizados, dando-se prioridades às cores; realizam-se reentelamentos, limitam-se as reintegrações cromáticas somente às lacunas, proíbem-se a eliminação de partes do original e de inscrições; transposições passam a ser realizadas somente nos casos de obras muito danificadas; o restaurador não pode levar cópias ou qualquer trabalho para seu ateliê e a circulação no local da restauração passa a ser restrita; algumas pesquisas científicas começam a ser realizadas em ateliês; novos critérios são estabelecidos, tais como, respeito máximo ao original, valorização do suporte, diminuição das transposições, reintegração ilusionista.
A Revolução Industrial traz grandes avanços tecnológicos, com a produção de materiais industrializados. Com o surgimento dos movimentos “neo”- neoclássico, neogótico -, resgatam-se movimentos antigos.
Alguns nomes consagram-se nessa época, como referência a estilos de restauração. Eugène Violet-Le-Duc, arquiteto, defende a restauração estilística, fazendo reviver o estilo neogótico; seu projeto baseia-se na busca pelo original e a perfeição formal dos edifícios deixando de lado a sua história. John Ruskin valoriza a arquitetura e seus critérios de conservação/restauração; para ele, o verdadeiro valor do edifício está nos materiais e na sua historicidade; partidário da conservação preventiva e da conservação in situ, enfatiza o papel do ambiente e da luz sobre as esculturas e talhas.
Já a Escola Italiana, partidária da restauração científica, defende a consolidação do que ainda existe, condenando a eliminação dos anexos históricos e preconizando a realização apenas de intervenções mínimas e reconhecíveis; os laboratórios de ciências instalam-se dentro dos ateliês de restauração.
No século XX os critérios e teorias sobre conservação e restauração de obras de arte são definidos. Surgem questões jurídicas na defesa do patrimônio e a regulamentação da profissão de restaurador. Com a arte contemporânea, os procedimentos e teorias da conservação/restauração são revisados.
Em 1930, iniciam-se o estudo sistemático da estrutura e a valorização da documentação; com a Segunda Guerra Mundial, destrói-se parte importante do patrimônio europeu; a Restauração sai do empirismo e busca bases científicas; são feitos estudos sobre comportamento mecânico da pintura sobre tela; o respeito ao original ganha máxima importância; a intervenção é feita de acordo com a necessidade da obra, priorizando-se a conservação; desenvolvem-se estudos sobre a influência do clima na conservação das obras de arte; aparecem conceitos como Reversibilidade, Estabilidade e Legibilidade; a Restauração passa a cuidar não só das obras de arte, mas também dos bens culturais; são criados centros e institutos internacionais como: o IRPA - Institut Royal do Patrinoine Artistique (Bruxellas,1937), o ICR - Istituto Central del Restauro (Roma, 1940), o ICOM - International Council of Museum (Paris,1946), IIC - International Institut for Conservation (Londres, 1950) e o ICCROM - Centro Internacional para o Estudo da Conservação e da Restauração (1956).
Em 1963 Cesare Brandi publica La teoria de la restauración e, em 1964, a Carta de Veneza estabelece novas regras para a restauração de monumentos.
Surgem questões jurídicas na defesa do patrimônio e a regulamentação da profissão de restaurador.
Hoje, com a arte contemporânea, novas teorias estão sendo formuladas e os estudos científicos crescem a cada dia por meio de novas tecnologias voltadas para física, química e biologia a serviço da conservação e preservação da obra de arte.
É importante ressaltar que a conservação preventiva da obra de arte é fundamental para que a mesma não chegue a sofrer intervenções de restauro.
As obras de arte também envelhecem, e desse modo, devemos sempre ter cuidados para que ela não sofra com alterações ambientais, com vandalismos e principalmente com o esquecimento.
MIGUEL, Ana Maria Macarrón. Historia de la conservación y la restauración: desde la antigüedad hasta finales del siglo XIX.”. Madrid: Tecnos, 1995.



24 fevereiro 2012

MARGS restaura arte e história do Rio Grande - Porto Alegre/RS


    A desmontagem, proteção e translado de uma obra de arte histórica com 24 metros quadrados pertencente ao acervo do Museu Histórico Farroupilha de Piratini, exigiu o máximo de técnica, planejamento e logística. Desmontar e identificar as partes de uma moldura de madeira nobre, com entalhes feitos a mão e pesando aproximadamente 70 kg, desmontar a tela do bastidor e proteger a pintura em óleo sobre tela datada de 1925, embalar o conjunto de forma adequada e transportar para Porto Alegre, também exige muitos cuidados. Foi preciso reunir e deslocar para a cidade de Piratini, com a coordenação técnica da especialista em restauração Naida Maria Vieira Corrêa, profissionais do Núcleo de Conservação e Restauro do MARGS, encarregados da execução de sua restauração, estagiários do Curso de Bacharelado em Conservação e Restauração de Bens Móveis da Universidade Federal de Pelotas,  membros da Defender – Defesa Civil do Patrimônio Histórico de Cachoeira do Sul, responsável pela execução do projeto de restauração, além do apoio de funcionários da Prefeitura de Piratini e a contratação de uma empresa especializada nesse tipo de serviço. Toda essa operação foi realizada nos dias 25, 26 e 27 de janeiro e culminou com a chegada ao torreão do MARGS no dia 30 de janeiro de 2012.

Do Palácio Piratini para o Museu
    Em novembro de 1925, o quadro medindo 6m x 4m, foi exposto no saguão do Palácio Piratini para a visitação pública. A pesquisa indica ainda que essa obra estava no Palácio Piratini até 1955, quando em função da contratação de Aldo Locatelli, para a execução de grandes painéis nas dependências do Palácio, foi nomeada uma comissão que decidiu pela transferência das obras de grande porte para o Museu de Piratini. São elas: a obra de Helios, a tela “A Fuga de Anita” de Dakir Parreiras e o “Retrato de Bento Gonçalves” de autor não identificado. A transferência ficou aos cuidados do Secretário de Educação e Cultura, Liberato Salzano Vieira da Cunha, com o aval do Governador Ildo Meneghetti, coincidindo com o primeiro ano da morte de Getúlio Vargas.

O mistério da tela
    De acordo com a ficha de catalogação da gigantesca obra, o nome do autor é Helio Xeelinger e seu título “Alegoria, Sentido e Espírito da Revolução Farroupilha”. No entanto, pesquisas realizadas pela Defender, revelam que o nome correto do autor é Helios Seelinger e o título da obra seria “Do Rio Grande para o Brasil”. A pesquisa indica que a obra teria sido encomendada por Oswaldo Aranha visando representar a formação de um movimento popular e militar que culminou com a Revolução de 1930. A tela tem uma alegoria na parte superior em baixo relevo que representa a inspiração na Revolução Farroupilha. Ainda se procura identificar algumas personalidades da história do Rio Grande do Sul que possivelmente estejam representadas no quadro, segundo referências do autor, são elas: Pedro Vergara, Flores da Cunha, João Neves da Fontoura, Fábio de Barros, Salgado Filho, Jorge Jobim, Francisco Leonardo Truda, Oswaldo Aranha e outros. O mistério fica por conta da mudança do nome do autor e do título da tela.

Uma decisão de governo
    A obra de Helios integra um conjunto de oito obras históricas que receberam a determinação de sua transferência para o Núcleo de Conservação e Restauro do MARGS por decisão do Secretário de Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil e do governador Tarso Genro. Essa e mais outras sete telas, foram encontradas em visita a cidade de Piratini no mês de janeiro de 2011, sem as condições adequadas ao seu valor histórico e artístico em razão do início da restauração do prédio do Museu Histórico. Sete telas foram abrigadas na Antiga sede do Governo Farroupilha, a tela de Helios ficou exposta no “hall” da prefeitura. Imediatamente o Secretário Assis Brasil com o apoio do governador, determinou a sua transferência juntamente com duas imagens sacras e a urna usada para receber os votos durante a eleição de Bento Gonçalves para a presidência da República Farroupilha, que chegaram ao MARGS em 16 de maio de 2011.

A restauração
    Os serviços de restauração pelo Núcleo de Conservação e Restauro, estão sendo financiados pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, através do Projeto Restauração de 8 Obras Históricas – Acervo Museu Histórico Farroupilha no valor de R$ 285.283,75, com o patrocínio exclusivo do Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Fazem parte da equipe técnica responsável, além da coordenadora Naida, Loreni Pereira de Paula, Fernanda Tartler Matschinske, Lucimar Ines Predebon e os estagiários da Universidade Federal de Pelotas, Flavia Silva Faro, Claudia Lacerda, Fabiana Alphonsin e Pablo Campos Lopez. A previsão de conclusão é outubro deste ano, dependendo ainda, de um projeto complementar visto que os orçamentos são de 2008. Estão previstos nesse projeto uma exposição das obras restauradas, aberta ao público além, do lançamento de uma publicação com todo o processo utilizado.

Lista das obras
Do Rio Grande para o Brasil (1925) de Helios Seelinger
Fuga de Anita Garibaldi a cavalo (1917, 1918) de Dakir Parreiras
Sem titulo – representa Bento Gonçalves em navio (1915) de Antônio Parreiras
Sem titulo – representa Bento Gonçalves a cavalo (1879) de Guilherme Litran
Retrato de Bento Gonçalves (final do século XIX) de Guilherme Litran
Retrato de Bento Gonçalves (s/data) Autor desconhecido
Retrato de Domingos José de Almeida (s/data) Autor desconhecido
Retrato de Manoel Lucas de Oliveira (s/data) Autor desconhecido 

Rethalhado de: Defender (http://www.defender.org.br/)

01 dezembro 2011

Arqueologia da UFPel no Casarão 8 - Pelotas/RS

     No dia 25 de novembro, o professor de arqueologia da UFPel, Pedro Sanches, fez uma visita ao Casarão 8 com o objetivo de retirar alguns artefatos encontrados pelos funcionários que trabalham na obra. As peças que não fazem parte da construção são vestígios arqueológicos, como pedaços de louças, vidros e madeiras torneadas que testemunham o cotidiano das pessoas que viveram no casarão e no seu entorno.
    O pedido para retirada das peças foi aprovado pelo diretor responsável pela Reserva Técnica que abriga o acervo do Casarão 8, na UFPel, e será inventariado e acervado. Antes disso, elas passarão por procedimentos de conservação nos laboratórios do curso de Conservação e Restauro e, no futuro, retornarão ao casarão como peças das exposições de longa e curta duração do Museu Arqueológico, que será ali implantado.
Além de professor de arqueologia nos cursos de Museologia e Conservação e Restauro, Pedro Sanches preside a comissão para implantação do Museu de Antropologia e Arqueologia de Pelotas nas dependências do Casarão 8.

por Ana Luisa F. Bezerra
 

29 novembro 2011

O Conservador nômade (E-conservation)

     Quando o computador ganhou um lugar permanente em nossas casas, começou uma revolução no trabalho. Mas a conservação não é uma das profissões que você pode realizar a partir do seu computador em casa, a menos que você esteja trabalhando em documentação. Pelo contrário, a conservação tem sido sempre um trabalho que precisa ser feito em outros lugares. Nos tempos modernos, este fenômeno atingiu uma dimensão nunca antes visto.
     Muitas vezes nos queixamos dos problemas dos tempos modernos. Não temos grandes revoluções ou guerras mundiais, mas as coisas estão mudando mais do que gostaríamos sem aviso prévio. Nunca foi mais fácil ou mais barato para viajar, assim como parece que nunca foi tão difícil permanecer em um emprego. Mobilidade é a palavra de referência hoje em dia. Contratos de longo prazo são difíceis de se obter. Contratos de curto prazo, e / ou freelancing, estão aqui para ficar e ditar nossas vidas. Agora, é muito comum ter de 35 a 40 anos e passado os últimos 10 a 15 anos pulando de projeto para projeto, tanto no meio acadêmico, no campo de museus ou no setor privado.
      Hoje em dia, a mobilidade é considerada como um requisito necessário para o mercado de trabalho moderno. Na conservação podemos contemplar três tipos principais de mobilidade: micro-mobilidade, quando você se move dentro da região onde você mora; macro-mobilidade, quando você se move continuamente em torno de seu país, o que não significa ir para casa, muitas vezes, e inter-mobilidade, quando você muda para outro país de forma permanente ou de longa duração (períodos de 2-5 anos).
       Mobilidade é ótimo! Ela permite que você viaje, veja o mundo, e se você não gostar de algo, pode passar para o seu próximo alvo. Mas também não permite que você planeje seu futuro, saiba onde vai estar vivendo em alguns anos, e crie raízes em sua comunidade ou crie uma família, basicamente, não permite que você se estabeleça e fique sossegado.
      Esta é a verdadeira natureza da conservação: ir "in situ", onde é necessário, embora você possa transformar isso em "ir a qualquer lugar que você tem a chance de". Todo o conceito inicial é muito atraente, para procurar um lugar melhor, para sempre se mover para o melhor, mas quando o melhor não está disponível e você precisa seguir em frente, porque o seu último trabalho ou projeto está terminado, então ele se transforma em uma questão de sobrevência.
       Isto deve ser visto como um sinal dos tempos presentes e não como um grande problema. Como um fator que está moldando a geração real de conservadores-restauradores e que provavelmente vai mudar a maneira como a conservação é feita, eu acredito que merece alguma refleção.


Rui Bordalo,
Editor executivo de e-conservation magazine
Editorial novembro 2011

04 novembro 2011

ENTREVISTA: John Asmus: Lasers para Conservação de Arte

   John Asmus é um dos cientistas do mundo líderes em conservação, reconhecido e muitas vezes referido como o avô do laser de conservação da arte. Ele fez história através de suas inovações que contribuíram maciçamente para o avanço da tecnologia aplicada à conservação da arte. Entre suas notáveis realizações profissionais em conservação nos últimos anos podem ser chamados obras significativas da arte como a Monalisa e o Imperador Qin doexército de terracota.
        John Asmus foi físico de pesquisa no Instituto de Fisica Pura e Apliada na UCSD desde 1973. Ele recebeu um Ph.D. de Caltech em Eletrônica Quântica e Física, e tem 130 artigos publicados e 25 patentes. Ele introduziu a holografia, lasers, a imagem ultra-sônica, e processamento de imagens digitais para a conservação da arte e adaptados a gás embutido a tecnologia do plasma pinch-to a geração de intensa radiação ultravioleta para aplicações de preparação de superfície. Seu trabalho anterior em lasers de alta energia foi realizado em excimer EUA NOL, Atomic Geral, Labs Maxwell, e SAIC. No Atomic Geral que participaram do programa espacial ORION nuclear.
John-Asmus
      O prêmio Laureate Rolex de Empreendedorismo foi dado a ele em 1990 por seu trabalho de restauro do Imperador Qin dos guerreiros de terracota de Xi'an, na China.Ele tem sido um membro das equipes de conservação de numerosas arte em todo o mundo.
  
Entrevista de Rui Bordalo, janeiro de 2008
Acesse:

06 outubro 2011

Restauro na Piratinino em fase final - Pelotas/RS

      
     O trabalho de revitalização da caixa d''água da praça Piratinino de Almeida, em Pelotas, uma das únicas no mundo totalmente de ferro, deve estar concluído até o início do próximo mês. Houve atraso na entrega das obras porque o monumento precisou de reparos não previstos no projeto inicial. O restauro começou em dezembro de 2010 e deveria estar pronto em junho.
    Subsidiada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a revitalização envolve as secretarias de Qualidade Ambiental e de Gestão Urbana. Depois de pronta, a caixa d''água da Piratinino voltará a auxiliar no abastecimento da cidade, além de complementar o patrimônio histórico e turístico da região. "Estamos terminando a obra e a previsão é de que seja inaugurada na última semana de outubro ou no início de novembro. Ela está praticamente pronta, mas, quando se trata de restauro, surgem coisas não previstas e, por isso, tivemos que encomendar mais projetos", diz a arquiteta Helenice Couto. Segundo ela, falta concluir um trecho de pavimentação, pintura, parte elétrica e alguns ajustes.
     O minucioso trabalho começou com o desmonte das peças degradadas. Depois, foi feita a demolição de alvenarias construídas fora da originalidade do monumento e retirado o piso, para não ser comprometido. A caixa d''água de ferro fundido recebeu jateamento e teve todas as peças danificadas recuperadas.

03 outubro 2011

Castelo e residência de Simões Lopes devem ser tombados

Dois pedidos formais de tombamento devem chegar em breve ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae), em Porto Alegre. O diretor Eduardo Hahn esteve em Pelotas para visitar as construções: o Castelo Simões Lopes - erguido em 1922 - e a residência, em estilo neomourisco, que pertenceu a João Simões Lopes Neto, o maior autor regionalista do Rio Grande do Sul. A proteção legal dos prédios seria apenas um primeiro passo. Em ambos os casos, a restauração é urgente.

Fotos atuais e antigas, documentos, plantas, dados históricos. O embasamento deve garantir a instrução dos processos. E, mesmo que o tombamento venha, não é a solução, é só o início, alerta o diretor do Iphae. No casarão da rua Santa Tecla o restauro, com verbas públicas ou através das leis de Incentivo à Cultura, precisaria ser resultado de um longo debate para indicar qual seria o uso do imóvel no futuro. Para justificar o investimento público, no entanto, o bem privado teria de ganhar utilização coletiva.

A ligação com Simões
O palacete, erguido na então rua Paissandu, 2, pertenceu a João Simões Lopes Neto, filho de Catão Bonifácio e Teresa. É concreto. Uma certidão, garimpada em cartório pelo simoneano Mogar Xavier, comprova: “A casa foi adquirida por ele em 1896, aos 31 anos, e vendida em 1897, mas não afirmaria que viveu no local”, diz.

Sem uma intervenção rápida, “será uma ruína muito em breve”, afirma o historiador do Iphae, Robson Dutra. Cairiam mais do que forros com ornamentos em madeira recortada, paredes com pintura mural ou a fachada em estilo neomourisco. Poderia se perder parte da história, não apenas da arquitetura.

Castelo Simões Lopes

Claraboia quebrada. Telhado desabado. Piso comprometido. Fungos nas paredes. Aberturas deterioradas. Porta de entrada sem fechadura. É um retrato do Castelo Simões Lopes, construído em 1922 por Augusto Simões Lopes. O cenário é de abandono, apesar de a Guarda Municipal permanecer de plantão no patrimônio adquirido pelo Executivo em 1991.

Nas mãos da prefeitura, a construção projetada pelo arquiteto alemão Fernando Rullman, já foi Casa de Cultura e Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Hoje é síntese de saques e vandalismo. Sem qualquer uso oficial.

Um recurso negociado com o Ministério da Saúde seria insuficiente para cobrir a restauração. “Os cerca de R$ 400 mil daria praticamente só para o telhado e a engenharia da Caixa Econômica, que é o gestor das obras do governo, não aceitou fazer por etapas”, explica a secretária de Saúde, Arita Bergmann. Um outro projeto deve, então, ser elaborado em conjunto com a Secretaria de Cultura (Secult), com vistas a um Memorial da Saúde Mental - sugere Arita.

 Por: Michele Ferreira


Rethalhado de http://www.diariopopular.com.br

10 agosto 2011

Por que preservar, conservar e restaurar?

O texto é parte do Caderno do Professor, do Calendário Museológico produzido
pela Superintendência de Museus do Estado de Minas Gerais, em 2005,
para o trabalho de difusão cultural junto às escolas públicas e particulares do estado.


Gilca Flores de Medeiros
A importância de conservar um objeto que consideramos parte de um patrimônio está no fato deste se constituir registro material da cultura, da expressão artística, da foram de pensar e sentir de uma comunidade em determinada época e lugar, um registro de sua história, dos saberes, das técnicas e instrumentos que utilizava.
Para termos esse registro da cultura é imprescindível a existência de um suporte material, como um objeto, uma construção ou um documento. Mesmo em relação aos bens intangíveis – como tradições orais, festas folclóricas, etc. – é necessário que sejam registrados em algum material: fotos, vídeos, cd e outros. Esses suportes, embora não sejam os bens culturais em si, guardarão seu registro e necessitarão ser igualmente preservados.
O profissional conservador/restaurador atua em três níveis: o da preservação, o da conservação e o da restauração. Somente uma ação integrada poderá oferecer resultados verdadeiros e duradouros, uma vez que de nada adianta, por exemplo, restaurar o interior de uma igreja sem que se consertem as falhas do telhado ou se realizem ações de conscientização da comunidade para reduzir o número de atos de vandalismo.
Para avaliar as condições de uma obra e atuar direta ou indiretamente, em sua preservação/conservação/restauração, o conservador-restaurador deve ter conhecimento de diversas áreas, como História, Física, Química, Artes, Biologia e Geografia, dentre outras e, muitas vezes, trabalhará ao lado de profissionais dessas áreas, já que a interdisciplinaridade torna-se cada vez mais necessária neste campo de atuação.

Preservação, Conservação e Restauração
A Preservação engloba, de maneira mais ampla, todas as ações que beneficiam a manutenção do bem cultural. Se tomarmos como exemplo uma imagem barroca, podemos considerar ações de preservação até mesmo as leis criadas para garantir a integridade do patrimônio, os mecanismos para viabilizar a realização de projetos de restauração, o cuidado com o meio ambiente que circunda o local ou ações como o desvio do trânsito para evitar a trepidação do prédio onde a obra se encontra. Enfim, todas as ações que colaboram para garantir a integridade do bem que se deseja preservar.
A ação de Conservação, embora possa realizar-se diretamente na matéria do objeto, não se limita a ela. A conservação visa interromper os processos de deterioração, conferindo estabilidade à obra. Para esse fim, atua sobre os aspectos que cercam e
influenciam a conservação do objeto, controlando os agentes que podem provocar a deterioração do bem cultural, como os biológicos (cupins, fungos, etc.), atmosféricos (temperatura e umidade), luz (natural, artificial), poluentes e o ser humano (manuseio, acondicionamento e transporte inadequados, vandalismos e roubo). Ao atuar diretamente na obra, enfocará a estabilidade da peça a ser conservada, buscando resolver seus problemas estruturais e recuperando sua integridade.
A Restauração atua sobre um objeto buscando não apenas conferir-lhe estabilidade, mas recuperar, o mais possível, as informações nele contidas. Imagine que, ao ser realizada, uma escultura possua cem por cento das informações nela contidas: sua aparência (cores, forma, textura, brilho), seus materiais constitutivos, etc. Com o passar do tempo, ou pro condições inadequadas de conservação, ou ainda, por atos de vandalismos, a obra pode ter perdido parte de sua matéria ou pintura. Neste caso, a ação de conservação buscará cessar as causas de deterioração e procurará dar estabilidade à obra, enquanto que a restauração irá mais além, buscando aproximar, o mais possível, a obra, estrutural e esteticamente, da ‘quantidade inicial de informações’.
Todo trabalho de restauração deve basear-se em referências contidas na própria obra ou, em alguns casos, em documentação segura sobre a mesma. O respeito ao original é fundamental e delineia os limites das intervenções. Algumas vezes o nível de deterioração de um bem cultural chega a um ponto tão grave, que inviabiliza sua recuperação estética, por falta de referências sobre as quais realizar o trabalho de restauração. O ideal é que todo bem cultural seja mantido em boas condições de conservação, para que não chegue a necessitar de restauração.

Nosso Patrimônio
Mas não é só o patrimônio artístico e histórico que merece cuidado. Todos nós temos à nossa volta um patrimônio que conta nossa história. Se olharmos com atenção em nossa casa, reconheceremos nosso patrimônio familiar: fotos que registram a história da família, objetos, documentos, hábitos, tradições e saberes.
Um instrumento usado por nosso avô, o diploma de nossa formatura, a foto daquele aniversário, um postal que recebemos de um amigo ou a foto de parentes que nem chegamos a conhecer, são exemplos de recordações de vida de nossa família e merecem ser preservados. Para isso, guardamos as fotos em um álbum, cuidamos de não dobrar ou amassar o diploma, limpamos periodicamente os objetos. A preservação desses objetos é a preservação da memória de nossa família e nos permitirá contá-la aos que virão.
A escola também é um patrimônio que precisa ser preservado: o prédio, as carteiras, os livros, etc. O conhecimento contido em um livro é o resultado do trabalho de muitas pessoas, que pesquisaram, desenvolveram teorias e métodos, a fim de facilitar a transmissão do conhecimento.
E quanta coisa os livros nos ensinam! Pequenos cuidados na hora de retirá-los da estante (não puxá-los pela borda superior, mas afastar os livros vizinhos, segurar o livro com firmeza e retirá-lo), ao manuseá-los (não umedecer os dedos com saliva,
não rabiscar ou dobrar páginas) podem significar muito na conservação desse objeto tão precioso. Também a imagem do prédio de uma escola revela muito sobre os valores e o comportamento da comunidade na qual está inserido. O cuidado com as carteiras e salas de aulas pode refletir o grau de identificação e envolvimento dos alunos com sua escola. A mesma atenção devem receber os arquivos da escola e o material que será produzido nas atividades propostas pelo calendário.
É mais fácil compreendermos uma idéia ampla se a assimilamos em nosso cotidiano, nas pequenas coisas. A importância de se preservar o patrimônio que vemos nos museus tem o mesmo significado da preservação de nosso patrimônio familiar e comunitário, apenas com sentido mais ampliado: essas instituições guardam bens significativos para uma cidade, um país ou toda a humanidade.

03 agosto 2011

Ministério Público Federal quer paralisação das obras do Maracanã

O Ministério Público Federal entrou nesta segunda-feira na Justiça com uma ação civil pública pedindo a paralisação imediata das obras de reforma da marquise do Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, no Rio de Janeiro. A ação solicita ainda a reconstrução da marquise antiga, que está sendo demolida.
O Ministério Público pede que a Justiça aplique uma multa diária de R$ 500 mil caso a Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) continuem com a obra. Outra multa diária, de R$ 1 milhão, é solicitada caso a marquise não seja reconstruída.
O Ministério Público baseia a ação no fato de que o Maracanã ser tombado pelo Iphan em 2000, o que impediria modificações radicais, como as que estão sendo feitas para a Copa do Mundo de 2014.
O procurador Maurício Andreiuolo, autor da ação, também quer que o Iphan e a Emop reedifiquem as partes já demolidas com a adequação da obra à preservação da marquise – sob pena de multa diária de R$ 1 milhão. Caso não seja possível a reconstrução por questões técnicas, o MPF pede que seja construída nova marquise similar à atual com a condição de efeito suspensivo caso a obra não atenda às especificações do bem tombado.

Para o Ministério Público, obras no Maracanã descaracterizam estádio tombado pelo Iphan
Para o Ministério Público, obras no Maracanã descaracterizam estádio tombado pelo Iphan

A Emop informou, por meio da assessoria de imprensa, que ainda não foi notificada sobre a ação do Ministério Público. Já o Iphan, que autorizou as modificações no Maracanã, discorda do MPF.
Segundo a assessoria de imprensa do instituto, o Maracanã não foi tombado pela arquitetura, mas pela importância etnográfica, isto é, por ser palco de uma manifestação cultural brasileira. Sendo assim, não há motivo para impedir as mudanças no estádio, por mais radicais que sejam.
Para o Iphan, as alterações do estádio são importantes para que ele continue sendo usado pela população e, assim, justifique seu tombamento etnográfico. A assessoria de imprensa do órgão lembra que já foram feitas outras modificações importantes no estádio em anos anteriores, como o fim da geral e a colocação de cadeiras nas arquibancadas.

Rethalhado de http://www.jb.com.br

21 julho 2011

Professora Andréa Bachettini da UFPel é eleita presidente da ACOR-RS

A professora do Departamento de Museologia e Conservação e Restauro do Instituto de Ciências Humanas da UFPel, Andréa Lacerda Bachettini, foi eleita presidente da Associação dos Conservadores e Restauradores de Bens Culturais do Rio Grande do Sul (ACOR-RS), para o biênio 2011-2013.
Fundada em 8 de julho de 2003, a ACOR-RS é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, espaço de discussão alicerçado na ética e na construção de propostas para dignificar a prática da conservação e restauração e proteger, como órgão da categoria, os profissionais conservadores e restauradores de bens culturais do Estado, como está previsto no seu estatuto.
A eleição aconteceu na última sexta-feira(15), durante Assembleia Geral da entidade, realizada no auditório do Museu de Arte do Rio Grande do Sul - Ado Malagoli - (Margs), em Porto Alegre.
A assembléia foi conduzida pela presidente do biênio 2009-2011, Lorete Mattos (restauradora de obras raras da Biblioteca da UFRGS) e pela secretária Loreni de Paula (restauradora do Margs). Foram apresentados o relatório de atividades e a prestação de contas da última gestão. A posse está prevista para 30 dias após a eleição.
Nova diretoria da ACOR-RS, biênio 2011-2013:
Presidente: Andréa Lacerda Bachettini, DMCOR/ICH/UFPel; Vice- Presidente: Naida Maria Vieira Corrêa, Margs, Sedac, RS/Restauratus; 1° Secretária: Loreni Pereira de Paula, Margs/Sedac,RS; 2° Secretária: Ângela Macalossi; Mestranda/UFPel; Tesoureiro: Fellippe de Moraes, Autônomo. Conselho Consultivo: Mariana Gaelzer Werthaimer, Autônoma; Daniele Baltz da Fonseca, DMCR/ICH/UFPel; Silvana Bojanoski, DMCR/ICH/UFPel; Denise Stumvoll, MCS/ Sedac, RS; Roberto Luiz Sawiztki, Iphae/ Sedac, RS. Conselho Fiscal: Vera Zugno, Autônoma; Luis Fernado Rhoden, IPhan,RS; Keli Cristina Scolari, DMCR/ICH/UFPel. Conselho Técnico: Lorete Mattos, UFRGS.

04 julho 2011

TEORIAS DA RESTAURAÇÃO ( Cesare Brandi)

  Cesare Brandi (1906-1988) é um dos principais nomes do restauro moderno. Em 1966 escreveu a Teoria da restauração, obra baseada nas diretrizes da Carta de Atenas, muitas vezes classificada como um texto teórico e pouco prático.
   Os teóricos do século XIX e início do XX se empenharam em classificar o que deve ou não deve ser restaurado com o objetivo de evitar que as intervenções pudessem causar mais danos do que o próprio tempo. Pensavam o restauro como uma ciência exata, com regras e métodos cientificamente determinados, prevalecendo o caráter histórico das obras.
  Após a Segunda Guerra Mundial, diversos monumentos foram destruídos. Nesse contexto, Brandi teve grande destaque, participando do restauro de inúmeras obras de arte; diante da falta de sistematização de procedimentos, começou a pensar no que seria sua Teoria da restauração, com o objetivo de delimitar regras que embasassem a prática do restaurador.
  Diante de tamanha destruição, o caráter artístico não pôde mais ser colocado em segundo plano, já que a fruição da obra-de-arte está relacionada à observação de sua imagem figurativa somada ao caráter histórico. É este aspecto que diferencia a obra-de-arte de outros produtos da ação humana. Brandi afirmava que “restaura-se somente a matéria da obra-dearte” (BRANDI, 2004, p. 31), já que o restaurador só atuará nesse nível e uma obra se manifesta por meio da matéria que, por sua vez, é o que degrada.
  Conhecendo o objeto já em estado deteriorado, não é possível ter certeza de como havia sido quando novo, sendo necessária uma intervenção baseada no estado em que se encontra quando restaurado e não no que se pensa ter sido seu “estado original”, o que levaria o espectador a incorrer em um erro de interpretação. Brandi chamou isso de “falso histórico”. Para Brandi, “(...) a restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra-de-arte, desde que isso seja possível, sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra-de-arte no tempo” (BRANDI, 2004, p. 33). Segundo suas teorias, as intervenções deveriam se guiar por uma crítica de valor em relação ao significado histórico do objeto, limitada pelo estado físico em que se encontra a obra-de-arte e sustentada por um vasto conhecimento técnico, estilístico, filosófico e histórico, não podendo depender do gosto particular do restaurador. Ele estabeleceu ainda que as intervenções deveriam tornar os acréscimos facilmente reconhecíveis, mesmo para um leigo, e que fossem reversíveis, permitindo sua retirada em caso de uma eventual intervenção futura.
  A principal marca da obra de Brandi é o rigor crítico-cultural que situa o ato de restauro como responsável pelas futuras interpretações estilísticas e históricas da obra-de-arte. Se for executada sem critérios, a restauração pode causar danos à obra que irão perpetuar-se por várias gerações.
  A partir dessas teorias, a preservação do patrimônio cultural, em suas diversas formas e aspectos, consolidou seu espaço na sociedade contemporânea, contribuindo para a democratização no acesso e na fruição da cultura.


Por  CHRISTIANA ARRUDA LEE DA ROCHA em Monografia "O LIVRO COMO OBRA-DE-ARTE:
CRITÉRIOS TEÓRICOS PARA CONSERVAÇÃO DE OBRAS RARAS" - http://www.bn.br/portal/arquivos/pdf/ChristianaRocha.pdf  -  Rio de Janeiro / Brasil 2008

30 junho 2011

LEIA ON LINE: DA RUINA AO EDIFICIO: NEOGOTICO, REINTERPRETAÇAO E PRESERVAÇAO DO PATRIÔNIO Por Cristina Meneguello

O presente trabalho, ao estudar o revival gótico e o medievalismo presentes na história, na arquitetura e nas artes da Inglaterra do século XIX, examina as estratégias de interpretação do passado histórico presentes na cidade industrial. Analisando o paradigma da cidade de Manchester como a cidade industrial por excelência, este trabalho observa a criação de um discurso sobre o passado local, intensificado quando da edificação da nova prefeitura da cidade e das escavaçóes das ruínas romanas em sua região central. Procede-se a uma análise do movimento neogótico, a partir da historiografia da época e posterior, questionando as idéias de sobrevivência, de revival e de historicismo na arquitetura. Centrando-se nas figuras de A.W.N.Pugin, John Ruskin e William Morris, o presente trabalho observa identidades entre o revival e o movimento Arts and Crafts, especialmente na questão do ornamento e da celebração da habilidade do artífice. Por fim, considerando-se o neogótico e o medievalismo em sua forma mais ampla, oferece-se uma explicação que se move em duas frentes: a criação das cidades de industriais e das cidades-jardim entendidas como um retorno à idéia de comunidade medievalizada que projeta o passado para o futuro; e o surgimento das primeiras sociedades de preservação do patrimônio na Inglaterra, atribuindo significados históricos à sua aversão ao restauro dos edificios e à sua defesa do passado tangível das ruínas, as quais indicam a permanência do passado no presente.

LEIA ON LINE EM : http://tinyurl.com/62o79nq

21 junho 2011

Teoria da conservação e do restauro

Breve história da teoria da conservação e do restauro 
Eduarda Luso
Escola Sup. de Tec. e Gestão, Instituto Politécnico de Bragança, Portugal

 Paulo B. Lourenço
Universidade do Minho, Guimarães, Portugal
 
Manuela Almeida
Universidade do Minho, Guimarães, Portugal

Os monumentos sofrem as consequências das condições atmosféricas e dos diferentes usos sociais que gerações lhe atribuem ao longo dos tempos. Ainda que “restaurar” signifique repor em bom estado algo que perdeu as suas qualidades originais, a aplicação prática deste conceito não é simples. Tal como houve ao longo dos séculos uma evolução e alterações nos estilos usados na arquitectura, com aplicação de novos materiais, novas técnicas de construção e fundamentalmente novas correntes artísticas e arquitectónicas, o restauro também sofreu mutações, com mais intensidade a partir do século XIX. Da mesma forma, a noção de património abarca hoje consensualmente também pequenos edifícios, espaços envolventes, construções rurais e centros urbanos históricos de cidades e vilas.

LEIA MAIS CONTINUA EM

http://www.civil.uminho.pt/cec/revista/Num20/Pag%2031-44.pdf

10 maio 2011

Entrevista com a aluna do curso conservação e restauro Mara Lúcia da UFPel - Pelotas/RS

O blog entrevistou a aluna Mara Lúcia de Vasconcelos, que foi contemplada com a bolsa Luso-brasileira Santander Universidades, com isso ela teve a oportunidade de cursar um semestre de conservação e restauro na Universidade Católica Portuguesa, na cidade do Porto em Portugal. Mara nos falou um pouco de sua experiência adquirida no pais, no qual ela mesma diz, ser uma das referências mundiais nas áreas de conservação e restauro e Patrimônio Cultural. Confira!

Blog – Como você conseguiu o intercâmbio para a universidade em Portugal?
Mara – Consegui o intercâmbio através de um processo seletivo organizado pelo Departamento de Intercâmbio e Programas Internacionais da UFPel (DIPI) para preencher as vagas oferecidas pelo Programa de Bolsas Luso-Brasileiras Santander Universidades. Escolhi como destino a Universidade Católica Portuguesa, na cidade do Porto, e após as etapas de análise do currículo, plano de estudos e carta de intenções e da entrevista, fui então selecionada.

Blog – Quais foram às áreas da conservação e restauro estudadas em que você mais aprofundou ou direcionou seus estudos nesta experiência? Como foi a receptividade da instituição?
Mara – A área na qual mais me aprofundei foi a dos materiais orgânicos, mais especificamente madeira. Além de cursar disciplinas relativas a este material, como História das Artes da Madeira – Talha e Conservação e Restauro de Mobiliário, tive a oportunidade de acompanhar uma professora da área diariamente na oficina do curso. O convite feito pela professora e a disponibilidade em ensinar exemplificam bem o tratamento que recebi na UCP. Todos, colegas e docentes, me receberam muito bem e com certeza tornaram esta experiência ainda melhor.

Blog – De que forma este intercâmbio contribuiu para a tua formação?
Mara – A oportunidade de estudar fora do país contribui de forma muito positiva para a formação acadêmica, profissional e pessoal. O intercâmbio foi de extrema importância para a consolidação de conhecimentos e enriquecimento do currículo. O contato com as diferentes disciplinas, projetos, professores e autores trouxe qualificação diferenciada para minhas atividades acadêmicas e profissionais.
“Em relação ao ensino, acho que estamos muito bem, pois não tive nenhuma dificuldade de acompanhar as aulas e os conteúdos, e me senti bem preparada em todos os momentos.”
Blog – No teu ponto de vista, qual a importância para o nosso curso de conservação e restauro ter uma relação com o curso de Portugal?
Mara – Acho que, para qualquer instituição de ensino, a troca de informações com outras instituições é sempre muito proveitosa, e deve ser estimulada. Portugal é uma das referências mundiais nas áreas de Conservação e Restauro e Patrimônio Cultural, e essa qualidade se reflete nas instituições de ensino e nos respectivos cursos. Manter uma relação com o curso da UCP de Portugal é extremamente interessante para o nosso curso, pois possibilita o intercâmbio de informações e a realização de projetos em parceria.

Blog – Você percebe diferença na visão que tem Portugal sobre a conservação e o restauro, em relação ao Brasil?
Mara – Ao contrário do Brasil, Portugal já possui tradição na área. Existe um mercado de trabalho estabelecido, muitas empresas especializadas em Conservação e Restauro, ou seja, existe a profissionalização, da qual muitas vezes sentimos falta no Brasil. A própria postura dos alunos dentro da universidade já é muito profissional.

Blog – Quais foram às diferenças mais marcantes entre a UFPEL e a universidade que você fez seu intercâmbio?
Mara – Acho que a diferença mais marcante é relativa à infraestrutura, não somente pelo fato da universidade de destino se tratar de uma instituição privada, mas também pelas diferenças gerais entre universidades portuguesas e brasileiras. No caso específico da UCP, o curso da Conservação e Restauro possui salas e equipamentos muito próximos do ideal, e um prédio que foi construído com a finalidade de abrigar o curso. Ainda assim, em relação ao ensino, acho que estamos muito bem, pois não tive nenhuma dificuldade de acompanhar as aulas e os conteúdos, e me senti bem preparada em todos os momentos.

Blog – Você pretende voltar a Europa para continuar seus estudos?
Mara – O intercâmbio foi também uma maneira de estabelecer contatos relativos à pós-graduação. Pude acompanhar uma aula do Mestrado em Conservação de Bens Culturais da UCP, a convite de um professor, e assim já me aproximar um pouco deste projeto.

19 abril 2011

Sem conservação adequada, réplica da Estátua da Liberdade da Vila Kennedy ameaça cair - Rio de Janeiro

         

       A mais antiga versão brasileira da Estátua da Liberdade, instalada em uma praça na Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio, está prestes a cair - e não será por obra de terroristas antiamericanos. Sem conservação adequada, a escultura exibe rachaduras e infiltrações, como mostra o leitor Alex Belchior.
       "A estátua da Liberdade da Vila Kennedy mostra a triste realidade dos monumentos da Zona Oeste. Nenhum deles foi recuperado pela prefeitura", afirmou o internauta, que recomenda reparos urgentes.
       Produzida pelo mesmo artista da obra americana, o francês Frédéric Auguste Bartholdi, a escultura foi doada ao então governador Carlos Lacerda pelo comendador José Ferreira da Rocha Paranhos para marcar a inauguração da Vila Kennedy. O bairro foi criado para abrigar moradores de 27 favelas desapropriados pelo lacerdismo. As obras receberam investimentos dos EUA e, por esse motivo, o protótipo foi posto na entrada do complexo residencial, que ainda foi batizado com o nome de uma das famílias de políticos mais tradicionais daquele país.
       Segundo o professor do Instituto de Geografia da Uerj e especialista em História do Rio, João Batista Melo, a estátua é um símbolo do posicionamento político do Brasil em relação ao comunismo.
- A Vila Kennedy foi um presente dos EUA para o país. A intenção do governo Kennedy era de garantir que os países latinoamericanos se posicionassem a favor do capitalismo, já que Cuba tinha acabado de apoiar a extinta União Soviética. Para isso, firmaram acordos, garantindo dinheiro. A escultura representou muito nesse momento de definições - esclareceu Melo.
A Secretaria municipal de Conservação e Serviços Públicos (Seconserva) informou que já está em estudo, por meio da Gerência de Monumentos e Chafarizes, um projeto para revitalização da obra, previsto para ser implementado ainda este ano. 

Retalhado do site http://oglobo.globo.com/

08 abril 2011

39 anos da carta do restauro


       Fazem 39 anos que o Ministério da Instrução Pública da Itália divulgou através da circular número 117, de 6 de abril de 1972,  o documento sobre restauração para que todos se atenham, escrupulosa e obrigatoriamente, em todas as intervenções de restauração em qualquer obra de arte. (Andrade, Soraia - 2002)
       A Carta de Restauro (MIP, 1972), que reforça que a obra de arte abrange qualquer época, e tem grande repercussão no Brasil. Por esta carta, abre-se um leque de opções, principalmente, ao reforçar seu uso na lógica sócio-espacial presente. Para tanto, institui que deve ser feito projeto para a restauração de uma obra arquitetônica após exaustivo estudo, devendo contemplar diversos pontos de vista. Assim, espera-se que se estabeleça a análise de sua posição no contexto territorial ou no tecido urbano, dos aspectos tipológicos, das elevações e qualidades formais, dos sistemas e caracteres construtivos, etc., assim como dos eventuais acréscimos ou modificações (MIP, 1972).

A pergunta que fica, será que ela é seguida "escrupulosamente" a risca?

Leia a carta na integra em http://www.icomos.org.br/cartas/Carta_do_Restauro_1972.pdf

14 março 2011

Conferência em Portugal com Prof. Andréa Lacerda Bachettini do Curso de Conservação e Restauro da Universidade Federal de Pelotas

        

          A professora do Curso de Conservação e Restauro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Andréa Lacerda Bachettini, estará levando seu talento para além-mar. Ela foi selecionada para apresentar um trabalho sobre o restauro do mobiliário do Museu da Baronesa durante a XVI Conferência Trienal do Conselho Internacional de Museus (Comitê de Conservação), que este ano será de 19 a 23 de setembro, em Lisboa. A conferência debaterá o papel da conservação, relacionando patrimônio e identidade cultural. Este, é o maior evento na área de conservação e restauração e acontece a cada três anos, quando se reúnem profissionais do mundo inteiro. Na semana seguinte ela segue para o Porto, onde participa do I Encontro Luso Brasileiro de Conservação e Restauro, realizado na Universidade Católica do Porto. A bela estará apresentando o Curso de Conservação e Restauro da UFPel e palestrando sobre Conservação e Restauração de Pinturas.

Rethalhado do Diário Popular
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...