CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE BENS CULTURAIS

03 setembro 2014

Preservação Digital V. 41, n. 1 (2012)

Portal de Periódicos do Ibict


A Revista P2P & INOVAÇÃO é uma publicação semestral, vinculada ao Grupo de Pesquisa Economias Colaborativas e Produção P2P no Brasil do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT. Este periódico tem como missão oferecer um espaço de reflexão e debate sobre as mais diversas experiências de produção colaborativa entre pares, tendo em vista especialmente seu caráter de inovação nos âmbitos cultural, social e político.


EDITORIAL:

19 junho 2013

A Restauração em foco: entre mitos e realidades Karen Velleda Caldas

Os cânones da conservação-restauração tiveram suas estruturas abaladas após a publicação Teoría Contemporánea de la Restauración, de Salvador Muñoz Viñas. Professor titular e atual diretor do Departamento de Conservação e Restauração da Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, o autor empreendeu uma ousada discussão sobre os paradigmas - quase dogmas - dessa área da preservação do patrimônio cultural. Graduado em belas artes, PhD pela Universidade de Harvard e prêmio de pesquisa Luis de Santángel, foi o primeiro espanhol a receber o título de Fellow do International Institute for Conservation of Historic and Artistic Works (IIC) em reconhecimento por suas obras sobre teoria da restauração. Essa designação é a categoria máxima que a organização, formada por milhares de membros em mais de cinquenta países, outorga aos profissionais especialmente reconhecidos no campo da conservação.
O texto, publicado por Muñoz em 2004, alcançou repercussão internacional e faz parte das bibliografias recomendadas – e necessárias - para os pesquisadores ou interessados no tema da preservação patrimonial. Nesta obra realiza uma análise profunda das teorias da restauração – as quais denomina “clássicas” - de modo a atualizar à contemporaneidade o que os teóricos preconizaram e consolidaram como regras e verdades ao longo dos dois últimos séculos.
Muñoz organiza o texto em três partes, além da introdução e de uma densa conclusão. Na primeira, identifica os fundamentos da restauração, seus conceitos, contextualizando-a do ponto de vista cultural. Já neste momento começa a desvendar as inconsistências e os limites mal definidos de uma teoria e prática conflituosas, desenhando o universo de o quepara que epara quem se preserva. Em uma palavra, o desiderato da ação restauradora.
Seu estudo indica que duas correntes dominantes orientaram grande parte das intervenções nos bens culturais nos últimos cem anos: uma inclinada para valores estéticos e outra para preceitos científicos. Sustenta que as teorias clássicas apresentam-se limitadas para o escopo atual da cultura, considerando que nem todos os objetos sujeitos ao restauro são obras de arte, bem como os motivos que levam a restauração desses bens podem relacionar-se a outros valores além do histórico e do artístico – sejam estes ideológicos, afetivos, religiosos, etc. - não sendo, portanto, inerentes ao próprio objeto nem, tampouco, cientificamente quantificáveis
Na segunda parte, Muñoz faz uma crítica aos conceitos clássicos sustentada em diversos autores da atualidade: princípios como autenticidade, objetividade, reversibilidade e ciência aplicada são colocados em xeque frente a uma realidade contemporânea que exige novos referenciais teóricos capazes de dialogar com a prática da restauração de modo efetivo.
O autor muda o olhar, antes direcionado ao objeto e sua materialidade, para a função e o significado que esse objeto representa em relação a seus grupos de pertencimento. Não obstante, questiona vários paradigmas da teoria da restauração, especialmente aqueles oriundos da teoria do italiano Cesare Brandi, publicada em meados do século XX. Critérios legitimados como mínima intervenção, distinguibilidade e reversibilidade, referências ainda fundamentais na justificativa das ações interventivas, são discutidos à exaustão. Partindo dessa análise minuciosa, o texto faz uma crítica explícita aos conceitos clássicos, apresentando a teoria contemporânea como alternativa para suprir suas limitações. Traz à discussão a necessidade de adoção de uma ética mais democrática e menos aristocrática a fim de que a restauração atenda a mais sensibilidades e contemple o maior número possível de formas de entender o objeto e atender equilibradamente a todas as suas funções e usuários.
No que se refere à ciência a serviço da conservação-restauração, o teórico sustenta que esta informa, mas não justifica as decisões que são tomadas na seleção de um determinado estado dos bens patrimoniais, logo, o restauro científico seria insuficiente para atender ao contexto contemporâneo da restauração. A objetividade - fundamento da abordagem científica - prevalente a partir do final do século XX, seria substituída, na teoria contemporânea, por uma forma de subjetivismo. Assim, Muñoz Vinãs adverte que as razões pelas quais se restaura e a seleção das coisas que se restauram são decisões culturais, antes de iniciativas de caráter estritamente técnico. Dentro da discussão da ciência a serviço da restauração, o autor apresenta também o conflito conceitual do critério da reversibilidade, substituído na teoria contemporânea pelo termo retratabilidade. O autor legitima a expressão, que, embora ainda se apresente restrita, traz consigo um considerável avanço para a matéria, pois ao menos demonstra os problemas teóricos que a ideia de reversibilidade carrega - e a necessidade de adaptação que exige por parte de quem os interpreta.
A terceira e última parte, que abrange a ética na restauração, aponta as modificações promovidas pela filosofia social no âmbito da cultura e na maneira como a sociedade passa a se comportar na medida em que reconhece sua diversidade. O autor admite que os conceitos subjetivos emergentes do atual endendimento de cultura produzem efeitos também na restauração, área que exige contínuas e bem sustentadas tomadas de decisão.
Nesse ponto talvez resida o principal avanço da teoria contemporânea da restauração, pois esta coloca o diálogo, a interdisciplinaridade e a sustentabilidade como caminhos fundamentais a fim de que as escolhas atendam mais satisfatoriamente a um maior número de sensibilidades. O autor expressa claramente essa ideia na na página 104 ao afirmar que “cualquiera que sea el momento de la historia del objeto que se escoja como estado de verdad, [...] al que el restaurador pretende devolver el objeto restaurado, se está haciendo una elección [...] que tiene inevitablemente um carácter [...] subjetivo”. O debate interdisciplinar com vistas à sustentabilidade, entendida por Muñoz num sentindo que vai além da possibilidade econômica de manutenção das intervenções, diminuiria o risco de excessos cometidos por profissionais que ele nomeia como peritos da verdade.
Muñoz afirma portanto, que o caráter subjetivo da conservação-restauração deve prevalecer sobre os aspectos objetivos de busca de verdades pois avalia que o que caracteriza a restauração não são suas técnicas ou instrumentos, mas sim a intenção com que se fazem as ações. Em suma, ela não depende do que se faz e sim para que se faz. Não obstante, o estudo destaca como essencial o caráter simbólico da restauração, cujos objetivos e limites estão vinculados à manutenção e recuperação dessa capacidade - sendo esta a diferença de outras atividades similares como reparação, repinturas ou remendos. Seguindo seu raciocínio, a teoria contemporânea da restauração oferece ferramentas conceituais mais flexíveis e adaptáveis para o sentido comum de todos os envolvidos com o bem cultural. Ainda nessa terceira parte apresenta, criticamente, os limites da teoria contemporânea da restauração, fazendo uma provocação a novas discussões, como o argumento de genialidade e os riscos de banalização.
Além das discussões teóricas o texto reconhece que a teoria contemporânea já existe. Contudo, ela se apresenta de forma difusa, muitas vezes expressada de forma paralela ou implícita, tratando-se de um conjunto ainda fragmentado, embora muitas das ideias que a sustentam tenham sido concebidas por Riegl no início do século XX. Partindo da percepção de um fio condutor, o autor sistematizou esse pensamento, conferindo-lhe um sentido orgânico, o que não significa assumir que representa uma recomplilação do trabalho de outros autores. Longe disso. A reflexão de Muñoz e o modo como organiza o pensamento resultou em inúmeras contribuições pessoais, o que confere a seu texto uma parcialidade indiscutível.
Em que pese ser um texto teórico, a linguagem do autor ao longo de suas 205 páginas é clara e simples: Salvador Muñoz Viñas tem um estilo irônico e sarcástico - quase literário, porém, sem excessos que comprometam a profundidade de sua reflexão. Trata-se de um conteúdo denso de natureza acadêmica. Contudo, a forma como o texto é abordado pelo autor torna-o atrativo para diferentes públicos. É leve e estimulante à discussão – objetivo intrínseco da obra – sendo igualmente relevante para profissionais e pesquisadores envolvidos na rede complexa de princípios e conceitos que subjazem à “arte” da restauração.
As discussões sobre preservação do patrimônio ganham outros contornos e significados a partir da leitura de Salvador Muñoz Viñas. Além da qualidade textual, o autor presenteia os leitores com uma bibliografia comentada que acende o interesse por aprofundar ainda mais o estudo sobre a restauração. Em verdade, o texto é um banquete provocativo, e como tal, merece ser degustado com muita atenção. Trata-se de uma obra rica e reconhecida como uma das mais inovadoras sobre o tema, considerada leitura obrigatória para os envolvidos com a área da preservação do patrimônio. Os inquietos e com fome de novos saberes, certamente farão bom proveito.

sobre a autora
Karen Velleda Caldas é mestranda do Programa de Pós Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas na linha de pesquisa Patrimônio e Cidade, graduada em Conservação e Restauro pela mesma Universidade e em Comunicação Social pela UCPel. Pesquisa temas relacionados às teorias da restauração e integra projeto que pesquisa a memória e o patrimônio da arquitetura pelotense.

Fonte: VITRUVIUS, Em http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.138/4765 acessado dia 19/6/2013 as 14:00h, 

14 junho 2013

Inovação em Conservação "Você pode pensar em uma maneira melhor para revolucionar a conservação?"

Criatividade consiste em grande parte de rearranjar o que sabemos, a fim de descobrir o que não sabemos ... Assim, para pensar criativamente, devemos ser capazes de olhar de novo para o que normalmente tomam por concedido.
Robert Fisher



  Quinze anos atrás, quando eu estava estudando conservação na universidade uma das coisas que eu mais gostei foi descobrir novos dispositivos e aparelhos e descobrir como eles podem ser úteis no meu trabalho. Eu costumava procurar ansiosamente catálogos de equipamentos em vários campos, tentando encontrar novos usos para essas "ferramentas de aparência estranha". Olhando para trás, percebo agora que eu, basicamente, uso as mesmas ferramentas antigas, sinto um pouco de decepção pela falta de inovação no nosso campo.
   Eu não estou dizendo que nada mudou na conservação. Estou bem ciente do enorme avanço que a ciência trouxe para o nosso campo, como melhores técnicas analíticas e de imagem digital. No entanto, estes têm sido, como sempre, emprestado de outros campos, como a física e a indústria  química. Quando pensamos em inovação na conservação, o mais recente equipamento científico vem a mente, mas na verdade para o nosso trabalho prático e imediato, as ferramentas que precisamos são muito mais simples.
  No nosso dia-a-dia de treinos nos encontramos, utilizando as metodologias mais conhecidas, porque sentimos que elas são os mais seguras. Podemos estar trabalhando contra o relógio, preso em uma rotina diária, apenas movendo sem pensar muito. Eu acho que é mais uma questão cultural nossa, sendo usuários em vez de fabricantes e, como em todos os assuntos culturais, isto também pode ser alterado. Veja o exemplo de Jeff Peachey, encadernador e conservador privado, que é um dos poucos profissionais que eu conheço que gosta de inventar. Se o conservador praticando vai mudar a sua mentalidade para encontrar uma maneira melhor de fazer o mesmo trabalho, então temos que definir o caminho para a inovação. Inovação não depende a última moda tecnológica ou no acesso a equipamentos científicos caros. A inovação não precisa ser high-tech. Ela só tem que servir a um propósito de uma maneira melhor do que antes.
  Um exemplo de referência para o nosso campo pode ser que do Movimento Makers (fabricantes). Este movimento está surgindo a partir da cultura do-it-yourself (faça você mesmo), mas longe de ser simples amadores, estes fabricantes transformar suas idéias em realidade, às vezes com um propósito comercial, mas na maioria das vezes para a diversão de trazer ao mundo algo físico que imaginou. Eles podem literalmente criar qualquer objeto, desde o mais ridículo ao mais interessante. A clara vantagem dessa cultura é que eles são movidos pela criatividade e objetivos, não apenas por aquilo que eles aprenderam como nós, conservadores, muitas vezes são.
  Este movimento foi recentemente chamado de "nova revolução industrial", porque tem poderes do indivíduo com a capacidade de produzir o que até bem pouco tempo era apenas o poder de fábricas. Tomemos, por exemplo, o caso das impressoras 3D: como impressoras 2D revolucionou a editoração eletrônica, assim será impressoras 3D mudar para sempre a forma como criamos objetos. Você já imaginou o seu potencial para a conservação? Ou olhar para tecnologias muito menos complexas, como o Dino-Lite (http://www.dinolite.com.br/ ), o famoso microscópio portátil digital.
  Apesar de suas limitações, é muito útil em nosso campo, mas se você pensar sobre isso, você vai perceber que tecnologicamente é muito básico, não muito longe de um simples brinquedo: uma webcam, uma lente de plástico e alguns LEDs. Todos estes são baratos peças off-the-shelf que podem ser facilmente montados para se tornar uma ferramenta de grande utilidade.
  Claro, eu não espero que deve vir tudo com grandes invenções, mas apenas prestar um pouco mais atenção às coisas que fazemos diariamente e tentar melhorá-las. Nem todas as invenções são necessariamente tecnológica: encontrar uma maneira de reduzir o desperdício, para tornar a conservação mais respeitadora do ambiente, para desenvolver melhores bisturis ou melhor morteiros já seria de grande ajuda. Por último, mas não menos importante, quando você descobre alguma coisa, certifique-se de compartilhá-la com o mundo, dar esse passo que contribui para o avanço do nosso campo.
  E imaginem, podemos adotar e implementar esta forma inovadora de pensar em nossas universidades, começando com a primeira fase de nossas carreiras. Você pode pensar em uma maneira melhor para revolucionar a conservação?

Rui Bordalo,
Redator-chefe
* Tradução do editorial da revista e-conservation (texto original: http://www.econservationline.
com/content/view/1090 ).



Carta de Pelotas, março de 2013*.

Sobre a conservação e restauro de bens culturais no Brasil


  O Conservador-restaurador é um profissional que trabalha para apreservação de bens culturais que se revestem de características simbólicas, o que lhes atribui valor cultural, além do valor financeiro que é presente em muitos desses objetos. A própria especificidade da atuação profissional do Conservador restaurador justifica a sua importância e razão social de ser: ao operar sobre objetos que têm essas diversas dimensões de significado e valor social, objetivando a manutenção da sua existência, o Conservador-restaurador contribui para a preservação da memória social.
  Por esses motivos o Conservador-restaurador já tem o seu reconhecimento estabelecido em diversos países. No Brasil, apesar de algumas instituições e profissionais contribuírem para a divulgação da imagem do Conservador-restaurador, ainda se constata muito desconhecimento por parte da sociedade, de maneira geral, de modo que nem sempre os conservadores-restauradores são considerados ou lembrados como os profissionais habilitados para exercerem aquilo que deveriam fazer - a gestão da memória por meio da conservação e restauração dos bens culturais.
  Nos últimos anos o Brasil presenciou algumas mudanças aceleradas no campo da conservação e restauro dos bens culturais. Dentre elas, destaca se o avançado estágio do processo de regulamentação da profissão de Conservador-restaurador e o surgimento dos cursos de graduação nesta área, em instituições públicas e privadas. Nesse novo contexto, antigas demandas da área são fortalecidas, ao mesmo tempo em que outras passam também a ocupar o espaço de reivindicação coletiva dos agentes que lutam pela consolidação da área da conservação e restauro no Brasil.
  A partir desse contexto, os participantes presentes na 1º Semana de Conservação e Restauro realizada pela Universidade Federal de Pelotas em março de 2013, entenderam ser fundamental que o processo de regulamentação da profissão do Conservador-restaurador seja finalizado o mais rápido possível, considerando os riscos pelos quais passa o patrimônio cultural, a exemplo de alguns tristes acontecimentos que foram noticiados em escala mundial e que já são históricos, tais como a suposta restauração de uma pintura sacra ocorrida na Espanha, realizada pela senhora Cecilia Giménez, o que implicou na provável destruição da obra original.
  Dessa forma, durante este evento a temática do necessário fortalecimento da área da conservação e restauro foi debatida com a participação de estudantes de cursos de graduação em conservação e restauro de instituições brasileiras, professores, profissionais atuantes e demais apoiadores da área, de modo a identificar as questões importantes para a área e elencá-las no presente documento. Os elementos que compõem esta Carta de Pelotas foram discutidos e entendidos como de fundamental importância para a qualificação e consolidação da área da conservação e do restauro de bens culturais no Brasil e estão enumerados a seguir:

- O Conservador-restaurador é um profissional que poderá priorizar a conservação ou o restauro em sua atuação profissional. No entanto, as decisões devem ser tomadas respeitando os princípios éticos da profissão e considerando o horizonte de expectativas dos grupos que detêm a posse de um determinado bem cultural. Será no trabalho em equipe, e considerando as características em que se encontra o bem cultural, que deverá se estabelecer uma metodologia de ação, sempre pensando de forma integrada a conservação e o restauro como atividades que compõem um mesmo campo epistemológico e profissional. Assim sendo, é fundamental que se perceba a abrangência da atuação do conservador-restaurador e que se compreenda que o trabalho interdisciplinar não descaracteriza as especificidades da área.

- O trabalho com o patrimônio imaterial requer conhecimentos a respeito das especificidades dessa tipologia patrimonial, na medida em que o Conservador-restaurador precisa operar com objetos que compõem esse
patrimônio e deve respeitar a dimensão memorial destes objetos. Assim, os conceitos que normalmente são utilizados para o patrimônio tradicionalmente dito material, devem ser utilizados com um necessário cuidado com as especificidades dos objetos que compõem parte do que se compreende como patrimônio cultural imaterial.

- Considerando os aspectos éticos da profissão, na medida do possível o Conservador-restaurador deve publicizar os resultados do seu trabalho, visando a transparência de sua atividade profissional, sem que isso prejudique a segurança e a integridade do bem cultural e do seu proprietário, ou mesmo da instituição a qual o mesmo pertence. Congressos de área, promovidos por instituições de representação de classe, instituições culturais, universidades ou outros, são meios adequados para a socialização dos resultados e dos conhecimentos obtidos com trabalhos de conservação e restauro, e reforçam a importância social do Conservador-restaurador.

Os conservadores-restauradores do Brasil e os estudantes da área devem se unir e permanecerem atentos frente ao desconhecimento ou desvalorização da profissão, objetivando também a luta pelo efetivo reconhecimento da profissão. Nesse sentido, é importante que a categoria se manifeste frente a algumas situações listadas a seguir:

- Estágios curriculares realizados por estudantes de cursos de Conservação e Restauro devem respeitar a legislação vigente, como forma de reforçar o processo de consolidação da área no país, do mesmo modo que a condução dos estágios não pode retirar espaço de atuação dos profissionais estabelecidos no mercado. Assim sendo, é fundamental que as instituições culturais e de ensino conduzam esses estágios com responsabilidade. Os estágios curriculares são integrantes dos projetos pedagógicos dos cursos de graduação, sendo experiências formativas e de aprendizado. Dessa forma, os estudantes devem obter, através de seu estágio, uma experiência de aprendizado e não a responsabilidade de substituir profissionalmente um conservador-restaurador devidamente habilitado.

- É urgente e necessário que se estabeleçam diretrizes curriculares nacionais para cursos de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais. Na medida em que diversos cursos têm surgido no país, a falta de diretrizes específicas para essa área de formação não contribui para a consolidação desta área.

-Os conservadores-restauradores são os profissionais habilitados para exercerem ações de conservação e restauro de bens culturais. Na relação com outras áreas do conhecimento é fundamental que sejam resguardadas e respeitadas essas atribuições da profissão. Nessa perspectiva recomenda-se que estudantes e profissionais se mantenham atentos a editais de concursos e processos de seleção, de modo que os sujeitos devidamente habilitados para trabalhar com a conservação e restauro de bens culturais tenham acesso a esses processos seletivos e que se resguarde a especificidade dessa habilitação para postos de trabalho na área.

O presente documento coloca-se como uma ferramenta para respaldar ações políticas e encaminhamentos dos profissionais da área, tendo sido aprovado pelos presentes, somando-se aos demais documentos equivalentes que têm como objetivo comum o crescimento e a consolidação da área da conservação e restauro de bens culturais no Brasil.

Pelotas, março de 2013.

*Carta redigida durante a 1° Semana de Conservação e Restauro da UFPel

07 junho 2013

PEQUENO RESUMO DA HISTÓRIA DA CONSERVAÇÃO/ RESTAURAÇÃO


Os antigos gregos já priorizavam a conservação de suas obras, praticando a Conservação Preventiva, pois faziam a seleção de materiais e técnicas para a execução de suas esculturas e pinturas. Os templos tinham o papel dos museus, onde as esculturas e outras peças eram inventariadas e as esculturas arcaicas eram enterradas. A Restauração era praticada para recompor partes de peças que eram danificadas pelas guerras e roubos.
Na Roma antiga, a prática do colecionismo indicava poder social e político. As coleções eram privadas, e as obras eram modificadas ao serem obtidas. Faziam-se cópias e reproduções e praticavam-se intervenções drásticas, como a transposição de pinturas murais para painéis de madeira. Os romanos, pela dominação territorial extensa, absorveram várias culturas e religiões, modificando-as. Buscavam a imortalidade da matéria. Devido a isso, a restauração era vista como magia, pois o restaurador era aquela pessoa especial que dava vida à obra através do realismo obtido pelas intervenções. O restaurador tinha cargo público: curator statuarum.
Na Idade Média, a Conservação/Restauração estava ligada à recuperação de materiais. A pobreza e a falta de matéria-prima levavam à destruição de monumentos e à refundição de esculturas e peças de metal; buscavam-se recuperar pedras e peças de monumentos abandonados; os templos, termas e teatros serviam como canteiros de obtenção de mármores; fragmentos e esculturas inteiras de mármores eram queimados para a fabricação da cal utilizada na argamassa. As obras sofriam intervenções “utilitárias” ou de gosto, e o restaurador era considerado o artista, pois as “corrigia”.
Inicia-se então um grande desenvolvimento de técnicas e do fazer artesanal, com o qual aparecem os primeiros tratados técnicos, fruto das experiências dos monastérios, como o Libro Del Arte, de Cenino Cennini (séc. XIV), sobre técnicas pictóricas.
Com o Renascimento, a Restauração fez prevalecer a instância estética sobre a histórica, através de inserções e renovações que mudam o significado iconográfico das obras: há uma busca de avanços tecnológicos e emprego de materiais distintos dos do original mas com o intuito de depois igualá-los através de pátinas; há presença de um colecionismo conservador e recuperador, motivado pelo gosto classicista; surgem falsificações através de intervenções que se aproximam do original, e são motivadas pelo gosto dos antiquários; ocorrem modificações no tamanho e formato das obras, devido à mudança de gosto e também às trocas de coleções, assim como, nas imagens, por meio de transformações mais realistas e também pelas mudanças de fundos; as intervenções relacionadas à religião alteram as obras por razões de culto, seja para valorizar o santo ou para substituí-lo por outro cuja devoção fosse mais atual; imagens consideradas indecentes são destruídas; imagens religiosas com grandes lacunas são queimadas em nome do respeito; proíbem-se as imagens de nus, nas quais são colocados vestidos e “panos de pureza”.
No Barroco, a Conservação/Restauração adquire um caráter mais específico devido à definição, pelo mercado, das diferenças entre artista e restaurador; buscamse novos materiais, técnicas e teorias sobre as possibilidades e os limites da restauração da matéria e sobre o valor histórico e cultural das obras; ocorrem avanços nas técnicas de restauração dos suportes e de limpezas; as transposições e marouflages passam a ser amplamente utilizadas; valorizaram-se a pátina do tempo; há uma difusão de produtos devido aos receituários; a reintegração cromática é realizada, de forma ilusionista através de repintura com os mesmos materiais do original; esculturas são complementadas e patinadas; iniciam-se uma busca por materiais reversíveis, e continuam as mudanças formais e de tamanho, de acordo com o gosto da época.
No final do século XVIII e no século XIX, com o Classicismo, a Conservação/Restauração vincula-se ao sentimento de patrimônio cultural coletivo: criam-se museus e academias; controlam-se as intervenções nas obras; as coleções são abertas ao público, e os museus adotam políticas pedagógicas” em relação aos visitantes; surge a definição de museu: “local onde se guardam várias curiosidades pertencentes às ciências, letras e artes liberais”.
Na pintura, buscam-se materiais mais estáveis, experimentando-se diversos aglutinantes, com preferência para as têmperas e encáusticas, pelo seu não-amarelecimento e não-escurecimento; há uma maior compreensão sobre as alterações das cores devido ao tempo e sobre a instabilidade de determinados pigmentos como o azul da Prússia; surgem novos pigmentos brancos, como o branco de zinco que substitui o branco de chumbo; a cera é usada, na frente e no verso da pintura, como camada de proteção contra umidade; iniciam-se os estudos sobre a oxidação dos materiais; inspetores do Estado controlam os trabalhos dos restauradores e classificam as obras de acordo com as suas deteriorações; produtos corrosivos deixam de ser utilizados, dando-se prioridades às cores; realizam-se reentelamentos, limitam-se as reintegrações cromáticas somente às lacunas, proíbem-se a eliminação de partes do original e de inscrições; transposições passam a ser realizadas somente nos casos de obras muito danificadas; o restaurador não pode levar cópias ou qualquer trabalho para seu ateliê e a circulação no local da restauração passa a ser restrita; algumas pesquisas científicas começam a ser realizadas em ateliês; novos critérios são estabelecidos, tais como, respeito máximo ao original, valorização do suporte, diminuição das transposições, reintegração ilusionista.
A Revolução Industrial traz grandes avanços tecnológicos, com a produção de materiais industrializados. Com o surgimento dos movimentos “neo”- neoclássico, neogótico -, resgatam-se movimentos antigos.
Alguns nomes consagram-se nessa época, como referência a estilos de restauração. Eugène Violet-Le-Duc, arquiteto, defende a restauração estilística, fazendo reviver o estilo neogótico; seu projeto baseia-se na busca pelo original e a perfeição formal dos edifícios deixando de lado a sua história. John Ruskin valoriza a arquitetura e seus critérios de conservação/restauração; para ele, o verdadeiro valor do edifício está nos materiais e na sua historicidade; partidário da conservação preventiva e da conservação in situ, enfatiza o papel do ambiente e da luz sobre as esculturas e talhas.
Já a Escola Italiana, partidária da restauração científica, defende a consolidação do que ainda existe, condenando a eliminação dos anexos históricos e preconizando a realização apenas de intervenções mínimas e reconhecíveis; os laboratórios de ciências instalam-se dentro dos ateliês de restauração.
No século XX os critérios e teorias sobre conservação e restauração de obras de arte são definidos. Surgem questões jurídicas na defesa do patrimônio e a regulamentação da profissão de restaurador. Com a arte contemporânea, os procedimentos e teorias da conservação/restauração são revisados.
Em 1930, iniciam-se o estudo sistemático da estrutura e a valorização da documentação; com a Segunda Guerra Mundial, destrói-se parte importante do patrimônio europeu; a Restauração sai do empirismo e busca bases científicas; são feitos estudos sobre comportamento mecânico da pintura sobre tela; o respeito ao original ganha máxima importância; a intervenção é feita de acordo com a necessidade da obra, priorizando-se a conservação; desenvolvem-se estudos sobre a influência do clima na conservação das obras de arte; aparecem conceitos como Reversibilidade, Estabilidade e Legibilidade; a Restauração passa a cuidar não só das obras de arte, mas também dos bens culturais; são criados centros e institutos internacionais como: o IRPA - Institut Royal do Patrinoine Artistique (Bruxellas,1937), o ICR - Istituto Central del Restauro (Roma, 1940), o ICOM - International Council of Museum (Paris,1946), IIC - International Institut for Conservation (Londres, 1950) e o ICCROM - Centro Internacional para o Estudo da Conservação e da Restauração (1956).
Em 1963 Cesare Brandi publica La teoria de la restauración e, em 1964, a Carta de Veneza estabelece novas regras para a restauração de monumentos.
Surgem questões jurídicas na defesa do patrimônio e a regulamentação da profissão de restaurador.
Hoje, com a arte contemporânea, novas teorias estão sendo formuladas e os estudos científicos crescem a cada dia por meio de novas tecnologias voltadas para física, química e biologia a serviço da conservação e preservação da obra de arte.
É importante ressaltar que a conservação preventiva da obra de arte é fundamental para que a mesma não chegue a sofrer intervenções de restauro.
As obras de arte também envelhecem, e desse modo, devemos sempre ter cuidados para que ela não sofra com alterações ambientais, com vandalismos e principalmente com o esquecimento.
MIGUEL, Ana Maria Macarrón. Historia de la conservación y la restauración: desde la antigüedad hasta finales del siglo XIX.”. Madrid: Tecnos, 1995.



23 outubro 2012

Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis



  • Cecor - Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis – EBA/UFMG
  • Núcleo de Conservação e Restauração – Universidade Estácio de Sá
  • Conservação e Restauro de bens culturais móveis da UFPEL.
  • Fundação de Arte de Ouro Preto – FAOP : Instituição que se dedicada à formação de profissionais aptos a atuar na preservação e conservação do patrimônio cultural brasileiro.
  • Departamento de Arte, Conservação e Restauro (DACR)  Escola Superior de Tecnologia de Tomar
  • Abracor - Associação Brasileira de Conservadores – Restauradores de Bens Culturais : Sediada no Rio de Janeiro e congrega profissionais de todas as áreas da conservação e restauração de bens culturais. Organiza cursos e eventos periódicos e procura disseminar informações por meio de suas publicações – Anais do Seminário, guias e boletins.
  • ABER -Associação Brasileira de Encadernação e Restauro : Localizada em São Paulo e foi criada em 1988. Voltada para a preservação de documentos gráficos, a ABER desenvolve, em convênio com o SENAI, um importante curso de conservação e restauração de documentação gráfica, além de outros que têm o papel como suporte.
  • CECRE  Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos – UFBA
  • CEIB - Centro de Estudo da Imaginária Brasileira
  • Portal de Conservação e Restauro
  • Patrimôniocultural.org
  • IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
  • Instituto dos Museus e da Conservação – IMC
  • Instituto Ibérico do Patrimônio
  • Institute of Conservation – Inglaterra
  • ARMOR – Paper Conservation
  • Textile Conservation Center – Inglaterra
  • AIC - American Institute for Conservation of Historic and Artistic Works
  • IIC - International Institute for Conservation of Historic and Artistic Work – Inglaterra
  • Getty Conservation Institute – EUA : Localizado em Marina del Rey, na Califórnia, atua nas áreas de conservação de obras de arte, de arquitetura e de arqueologia, oferecendo cursos, promovendo eventos e produzindo publicações, dentre as quais o boletim quadrimestral Conservación, além de trabalhos técnicos na área.
  • ICCROM - International Centre for Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property- Itália :  Tem como área de abrangência os mais diversos tipos de bens culturais – monumentos, edifícios históricos, sítios arqueológicos, coleções de museus, documentação bibliográfica e arquivística – e sua atuação se dá basicamente em três campos: documentação, pesquisa, consultoria e treinamento.
  • ICOMOS - (International Council on Monuments and Sites – França
  • Revista Museu
  • FUNARTE Brasil : Memória das Artes

10 outubro 2012

I Encontro Carioca De Conservação e III Jornada de Conservação - Restauração




     Nos dias 26, 27 e 28 de novembro, o Curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, da EBA – Escola de Belas Artes da UFRJ, em parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa, promoverá o I Encontro Carioca De Conservação e a III Jornada de Conservação/Restauração no auditório da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. A programação inclui mesas redondas, palestras, debates abordando as mais diversas questões teórico- práticas da área, promovendo o diálogo entre os alunos dos cursos de graduação com profissionais atuantes, com temas como mercado de trabalho, reserva de mercado, cursos de graduação no Brasil, ciência e arte.

Nomes já confirmados:

- Angelo Venosa (FCRB)
- Ana Pessoa (FCRB)
- Boris Marcelo Goitia Claros (Ciência e Restauro\DAMMAR)
- Carlos Azambuja (UFRJ-EBA)
- Cristiana Calza (UFRJ - COPPE)
- Dalila dos Santos (UFRJ-EBA)
- Edmar Gonçalves (FCRB)
- Fabiano Cataldo Azevedo (UNIRIO)
- Maria Luisa Soares (UFRJ-EBA)
- Maria Regina Emery Quites (UFMG-CECOR)
- Márcia Rizzo (PUC-SP)
- Marilene Corrêa Maia (UFMG- CECOR)
- Noêmia Barradas (IPHAN)
- Roberto Heiden (UFPEL)
- Simone Mesquita (UFRJ- MN)

Organização: Curso de Conservação e Restauração/UFRJ e Fundação Casa de Rui Barbosa /SEP- Setor de Preservação
Apoio: Fundação Casa de Rui Barbosa – Rua São Clemente, 134 - Botafogo
Público alvo: alunos e profissionais atuantes na área de conservação/restauração, museólogos, arquivistas, bibliotecários, historiadores e demais interessados no tema.
Nº de Vagas: 280
Informações e inscrições: cr_eventos_ufrj@hotmail.com
Estudantes: R$ 15,00 - Profissionais: R$ 40,00
Depósito bancário: Banco do Brasil – Ag. 3652-8 c/c 56303-X – Francisco J P Silva
(Obs.: As inscrições acontecerão até que o número de vagas seja ocupado) 



11 julho 2012

Dica de site/blog e de leitura: Historia e-história e Pelotas dos anos 50

      Duas dicas interessante para quem gosta de história. A outra mais diretamente para quem mora em Pelotas/RS.
      A dica do Site é do historia e-historia, uma publicação organizada com o apoio do grupo de pesquisa arqueologia histórica da UNICAMP.
     "O interesse pelo passado tem gerado uma multiplicação de revistas virtuais, onde Historia e-Historia surge voltada para divulgação da pesquisa histórica e preocupada com a relevância do estudo da História e da Arqueologia."


      Dando uma olhada mais atenta  podemos nos deparar com trabalhos de alunos e uma boa pedida de leitura e o texto sobre a Pelotas dos anos 50.
Segue o link:
                       Parte 1: link
                       Parte 2: link

Fonte: Saneamento de Pelotas (quinta etapa-1950-1951): relatório da construção. Pelotas: 1952.



25 abril 2012

Kamikoya, a paixão pelo papel artesanal washi


O holandês Rogier Uitenboogaart trabalhava numa empresa de encadernação artesanal de livros em seu país quando teve a oportunidade de ver pela primeira vez uma folha de washi, o papel japonês. Ele ficou encantado com a qualidade, textura e transparência da peça e resolveu viajar ao Japão para pesquisar sobre essa milenar técnica nipônica.

Em 1980, Rogier passou a percorrer as principais regiões japonesas onde existia a tradição de produção de
washi. Ele relembra que “conforme aprofundava a pesquisa, ficava cada vez mais fascinado porque descobri que todo o processo da confecção do papel estava intimamente relacionada com outros elementos culturais e também muito ligado com a natureza, já que utiliza a casca do caule de alguns tipos de plantas para produzir a fibra. Foi uma surpresa porque era diferente do papel artesanal europeu, que é feito reciclando tecidos de algodão”.

Depois de um ano de pesquisa, ele decidiu viver no Japão para trabalhar com o
washi e escolheu a província de Kochi para morar. Desde antigamente até hoje, ela é a maior produtora do país da matéria-prima para a fabricação do papel tradicional, ou seja, das plantas kōzo e mitsumata, das quais se extrai a fibra.

Rogier produz o
washi com uma técnica antiga, que já está deixando de ser praticada no Japão, mas que ele considera natural e ecológica. O próprio se encarrega de todo o processo produtivo, desde o cultivo das plantas que fornecerão a fibra. Atualmente, 70% da matéria-prima usada para fazer washi é importada de outros países e a produção no Japão em larga escala se tornou inviável economicamente. Ele também faz questão de não usar nenhum produto químico ou poluente. As folhas de washi são muito usadas para a produção de artesanato e para a decoração de interiores e revestimento de parede. Rogier também confecciona lustres com o papel, colando em armações que faz com os cipós que ele mesmo coleta na floresta.

Recuperar a tradição

Rogier, primeiramente, residiu na cidade de Ino e depois, em 1992, transferiu-se para Yusuhara, onde, posteriormente, desenvolveu um projeto junto com seis famílias de agricultores para recuperar a antiga tradição da região como produtora das plantas para fazer washi.
Atualmente, as montanhas estão tomadas pelo reflorestamento de sugi (cedro), mas, até algumas décadas atrás, o povo cultivava as altas e íngremes encostas com plantas comestíveis e também com kōzo e mitsumata. Esta última tinha grande importância econômica porque era adquirida pelo governo para confeccionar as cédulas de dinheiro.

Rogier conta com orgulho que “neste ano, o grupo plantou mil pés de
mitsumata. O projeto também tem como objetivo oferecer alternativa de trabalho e renda para os moradores locais”. A comunidade onde ele reside fica longe da cidade, isolada no fundo de um vale. Faça o seu papel
Em 2006, a atividade com a comunidade foi incrementada com a inauguração de uma oficina de papel e pousada, chamada Kamikoya. Os ingredientes utilizados na refeição da pousada são fornecidos pelos próprios agricultores que participam do projeto.

Os visitantes, mesmo não sendo hóspedes, podem participar de cursos de produção de papel, desde experimentais até avançados.


Além da produção do
washi, os cursos incluem a identificação das plantas utilizadas para tirar a fibra, que estão plantadas próximas da oficina, e coleta das folhas e ramos que servirão para misturar com a polpa e decorar o papel.




Rethalahado de http://curtindoojapao.com
Texto e fotos: Reginaldo Okada©
Coordenação e pesquisa: Satomi Shimogo


18 abril 2012

Al Problema De La Decisión: “Porqué, Cómo y Cuándo se Restaura”, se Agrega el de: “ Cuánto” ?

M. Silvio Goren*
El investigador debe valerse de los datos que brinda el material de estudio, para ubicar determinada obra en el tiempo y medio de su creación. Conservadores y Restauradores tienen la obligación de procurar la preservación de la materia y también de todos los signos posibles, para permitir que las investigaciones puedan llevarse a cabo sin falseamientos ni complicaciones; tanto sea para rescatar todo valor histórico-documental factible, como para permitir la admiración estética de una pieza.
Pero a pesar de la enorme difusión que han tenido las consignas de la Conservación, cantidad de restauradores siguen ignorando esas pautas y continúan interviniendo “profundamente”, como si “haciendo mucho se hiciera mejor”. Por qué?
Una respuesta es que a los restauradores -que somos fundamentalmente artesanos- nos cuesta cambiar nuestros sistemas de trabajo. No se puede olvidar que los Maestros que nos dieron instrucción, enseñaron que para hacer una buena tarea era necesario que la obra quedara hacer un trabajo “completo y prolijo”, y en especial “a fondo” para prever males futuros. Y aunque hoy día se ha demostrado que esa consigna no responde a toda la verdad, a veces lo ignoramos, quizá sintiendo que traicionamos a nuestros educadores y al conocimiento que nos brindaron.
Hay incluso oficios artesanales -muy relacionados al Patrimonio Cultural-, en los que la tradición está arraigada a través de siglos, y donde será más lento el proceso de concientización.
Otra explicación es que a veces las consignas de “cuidado extremo” se ven demasiado teóricas, porque pertenecen a realidades de instituciones con recursos y conciencia, que no son las de los países subdesarrollados; y los técnicos no terminamos de relacionarlas con el trabajo (a veces desesperado) que estamos haciendo.
Pero yo creo que en el fondo de cada profesional hay una intención de hacer las cosas “lo mejor posible”, y gustaría reflexionar acerca de las razones valederas de la Conservación que han logrado modificar todas las especialidades de la restauración.

FUNDAMENTOS

Una obra es una unidad complementaria de recursos y funciones múltiples. Mientras que los recursos están referidos al estudio y la investigación, las funciones representan las maneras en que el objeto puede ser utilizado o aprovechado para su exhibición y consulta.
Tomaremos el ejemplo de un libro, ya que es uno de los “artefactos” de funciones múltiples más completo, perfecto para simbolizar la secuencia de pensamiento correcta cuando se plantea una propuesta de intervención. Con las modificaciones pertinentes a cada caso, esta práctica puede ser aplicable a todas las otras especialidades.

Entonces, sin discutir sobre la importancia o prioridad de las funciones destacables de un libro, describiremos genéricamente el “para qué sirve” un “artefacto llamado libro”. Y ese análisis nos llevará -por sí solo- a las pautas que fundamentan la Conservación.


MATERIALES Y COMPOSICIÓN

Normalmente un libro está constituido por una materia prima llamada papel. Para poder estudiar documentos u obras de arte plasmados sobre papel, se cuenta con estas características que deben ser preservadas durante cualquiera de los tratamientos conservativos o restaurativos previsibles:

El soporte (el papel con todas sus características físicas y químicas).
El sistema con que se imprime o escribe el eventual texto.
Los materiales tintóreos utilizados para texto, decoración o algún tipo de expresión artística.
La estructura expresiva empleada; linguística, literaria o artística.

Cada una de éstas se diversifica a su vez para multiplicarse en una cantidad de aspectos que involucran distintas especialidades.

FUNCIONES

Una vez producido el libro, los elementos citados pasan a formar parte de un mecanismo que los interrelaciona y multiplica, que puede llamarse función.

La informativa: se refiere al contenido, el texto o material impreso propiamente dicho.
La histórica: puede tener una firma, inscripciones, haber pertenecido a una personasignificativa, implicar una relación con determinada importancia ideológica, etc.
La cultural: puede representar una decoración característica de cierta época o distintiva de un pueblo, grupo artesanal, etc.
La estética: es fundamentalmente relacionada a lo artesanal (la obra puede ser representante de un sistema de impresión o un estilo de encuadernación determinado, conmateriales especiales etc.)
La mecánica: debe servir para posibilitar la maniobra de la lectura o la investigación.
En la mayoría de los casos, la información es algo que precisa conservarse. Y esto se puede hacer fácilmente con recursos que van desde una fotocopiadora hasta la fotografía o la microfilmación. No es “menester” producir retoques y aclaraciones en el original pues eso se produce en los duplicados.
Pero es respecto de la materia donde generalmente abundan las discusiones para determinar hasta qué punto vamos a reemplazar o modificar determinada parte componente. Es allí donde el restaurador podrá hacerse la pregunta clave para encontrar la solución: qué se desea restablecer? Previendo que a lo mejor las exigencias están referidas a sólo una parte del objeto, y no es necesario intervenir sobre otra área.
Si se trata de la parte correspondiente a la expresión artística, deberán restaurarse las partes afectadas haciendo un esfuerzo por preservar todo vestigio de material original y evitar los reemplazos radicales. Es fácil entender que nosotros podemos hacer un trabajo “mejor” o “peor” que el original, pero nunca podremos recrear “el mismo”. Y ya que este punto es bastante subjetivo, con la ayuda de un historiador se podrá encontrar la forma para “sugerir” el aspecto original
Si el caso es la documentación histórico-cultural, no caben discusiones: deberán preservarse y respetarse todos los signos posibles.
Y si es la mecánica, habrá que restablecer la posibilidad de manipular el objeto, salvo que se decida quitarlo de circulación. En ese caso podrán mantenerse separadas algunas partes; para no someterlas a una nueva intervención (en el caso del libro, esto se refiere a guardar las tapas en un recipiente apropiado, para consulta de profesionales especialmente interesados). Pero en caso de requerir nuevamente la función de su uso, hay que tener en cuenta que muchas veces se puede reforzar, sin necesidad de cambiar o reformular el sistema. Todo depende de cuánto se vaya a utilizar al regresarlo a su sitio habitual.
El caso de los libros es muy interesante para la ejemplificación, ya que desde una institución puede desalentarse el manejo indiscriminado. La idea parte en establecer con qué motivo desea consultarlo el usuario. Si es por el contenido, a la persona le dará igual que le entreguen una fotocopia; y recién se le permitirá acceso al original al investigador que acredite interés por las otras “funciones” del objeto, y solicitándole que use guantes de algodón para el manejo. De ese modo se le ahorra al ejemplar una enorme cantidad de manipulaciones innecesarias.
Finalmente, pido a mis colegas que no dejen de consultar a profesionales de otras disciplinas. La consulta no denigra sino que enaltece la responsabilidad profesional de quien la hace; y a través de ella se da cabida al aporte de otras ideas que pueden mejorar considerablemente nuestro trabajo.
Cuando se le solicita al profesional que “escuche” a la obra, para determinar qué es lo que “realmente” está requiriendo, se le está pidiendo que no restaure más allá de lo necesario. Pensemos que nuestros Maestros, puestos en esta realidad, también habrían abrazado los conceptos de la Conservación.

* M. Silvio Goren es Restaurador y docente en materia de Restauración y Conservación.
Site: http://www.silviogoren.com.ar/
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