Acrílica s/ "Charque ao sol" By Manoel Magalhães
Pelotas está mudando a olhos vistos.
Um passeio pelo coração da cidade (Pça. Coronel Pedro Osório), graças ao
Projeto Monumenta, programa de recuperação do patrimônio cultural
urbano brasileiro, executado pelo Ministério da Cultura e financiado
pelo BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, antigos casarões que
estavam fadados a desabarem, hoje voltam a encantar turistas e
pelotenses.
Isso não quer dizer, entretanto,
que devamos fechar os olhos à realidade. Esses monumentos foram
erguidos pelos barões do charque, utilizando-se mão escrava. Muito
sangue e suor têm meio aos tijolos. Acaso apuremos os ouvidos, nos dias
ventosos conseguimos ouvir o lamento das senzalas, que ficavam no porão
das construções.
O fausto da Pelotas antiga ainda
se sobrepõe aos esforços que cidade faz para modernizar-se. Esses
casarões, ícones da falida nobreza pelotense, mercê do trabalho de
restauração, ganham fôlego nas ruas da cidade, levando-nos a inúmeras
reflexões. Dentre essas, uma advém de antigo ditado, que se pode
interpretar como sendo, quem sabe, superstição.
Nossos pais e avós, diante de um
saleiro virado, vendo o sal esparramado no chão, diziam referentemente:
joguem açúcar em cima. Portanto, amigos, eis a questão. Quanto açúcar
terá de ser jogado sobre a cidade para adoçar a quantidade de sal que,
ao longo dos anos, foi jogado sobre a carne, processo de salinização,
transformando-a em charque?
Não será pouco, evidentemente.
Para os descrentes talvez isso nem seja possível, pois haja açúcar para
adocicar o passado pelotense, cuja riqueza foi amealhada graças ao sal,
gado, suor e sangue derramado pelos escravos.
A Feira Nacional do
Doce (Fenadoce), que ora se realiza no Centro de Eventos, por certo
minimiza um pouco o carma da Princesa, cuja expressão é melancólica.
Percebe-se que ano após ano o festejo ganha fôlego, levando o nome de
Pelotas além de nossas fronteiras. Muitos, aliás, têm esperança de que o
açúcar, assim como ocorrera com o sal no passado, transforme-se no
produto que desenvolverá a cidade.
Outros tantos, porém, disso
duvidam, não por serem descrentes, mas porque acreditam no antigo hábito
da cidade dos barões de puxar o freio de mão quando solicitada a enfiar
a mão na guaiaca e investir nela mesma. Caxias do Sul e Gramado, por
exemplo, terras de empreendedores, transformaram-se em modelo de
cidades, onde o passado perde força diante da energia do presente,
correndo na direção de faustoso futuro.
Evidentemente que privilegiar o
conjunto arquitetônico pelotense, transformando-o num museu a céu aberto
é inteligente. A Casa do Lago, recentemente inaugurada, funcionando
como posto turístico demonstra vontade de acertar, dando informações
preciosas aos turistas, e turismo incentivado significa lucro à rede
hoteleira, aos restaurantes, alavancando a estima de Pelotas. Mas só
isso não basta para colocar a cidade num patamar privilegiado.
Os pelotenses atentos – e
turistas igualmente, não desmerecem o que está sendo feito, mas têm
certeza de que a cidade, para chegar ao nível das cidades serranas, tem
um longo caminho pela frente.
É inegável o crescente
empobrecimento de Pelotas considerando-se o número de sem-tetos que se
vê pelas ruas, tendo nos calcanhares matilhas de cães não menos
abandonados. O crescimento da atividade informal, igualmente,
agiganta-se em razão da pouca oferta de emprego e, também, pela carência
de qualificação profissional. Aos poucos os camelôs começam a tomar
conta outra vez do Calçadão da Andrade Neves, enfeiando-o.
Pelotas vive um bom momento,
sim, mas uma chuva de açúcar sobre o sal que se acumulou no imaginário
pelotense por anos a fio pouco adiantará se a mão que entrar na guaiaca
sair vazia.
Para que isso ocorra é
imprescindível mudanças de paradigmas. Os “poderosos” da terra terão de
aprender a olhar o entorno com generosidade, conferindo-lhe beleza
urbanística, valorização do patrimônio histórico, e dotando a cidade de
infraestrutura digna, arrancando-a em definitivo do passado. Passado que
de quando em quando se maquia – sobretudo nos festejos - mas, como
todos sabem a maquiagem dura pouco.
Ano que vem Pelotas completa 200
anos. O que prevalecerá? O sal que os anos acumularam em nosso
inconsciente ou o açúcar que, dia após dia, ganha importância na cidade,
com pretensões de mudar nosso paradigma histórico?
Manoel Magalhães